Pauperismo – A heresia está de volta?

Pauperismo – A heresia está de volta?

Em pleno século XXI, em uma era que se exalta á tecnologia, dos meios rápidos de comunicação, do fácil acesso informação, no entanto, ainda somos obrigados a ver e ouvir nos meios de comunicação frases esdrúxulas, sem nexo e sem conhecimento algum como: “Vende o Vaticano para dar o dinheiro aos pobres...”, “O Papa tem que pegar os milhões do Vaticano e acabar com a fome do mundo...” entre outras frases que de memória me recuso a recordar.

Pois saibam os comunistas de plantão (leia-se hereges também) e os que se julgam pobres o bastante para ensinar a Igreja o que fazer, que tal movimento já existiu dentro dela e como a história nos ensina o mal que isso ocorreu para as almas e para a própria Igreja.

Depois que o Papa Francisco foi elevado a Cátedra de Pedro, percebemos que isso tem ressurgido com maior entusiasmo. Talvez pela sua origem latino-americana, talvez pela sua forma de expressar a simplicidade nas palavras e ato. Mas o fato é o seguinte, vivemos em um mundo idiota que curte a viuvez de Stalin e Lenin, que quer canonizar Karl Marx, Che e Mandela, mas não quer aceitar o Pobre dos pobres, Jesus Cristo Nosso Senhor, que mesmo sendo rico se fez pobre para nos enriquecer. (II Cor 8,9)

O perigo desta artimanha demoníaca é eminente e temos que ter muita sabedoria e pé no chão, pois como o diabo, é sorrateira e perspicaz, sabe entrar nas frestas da imaginação e da fé embasadas em sentimentalismo e pouca doutrina.

Vamos à história:

Movimentos em prol da pobreza

Na Alta Idade Média, o brilho exterior da Igreja sempre foi crescente, o que ofuscou o olhar dos mais escrupulosos, que viam nesse esplendor um grande perigo de se desviar para a mundanização e esquecer os ensinamentos do Mestre.

Nesta época o Papa gozava de grande prestígio não somente espiritual, mas também temporal. O mercado marítimo na Europa estava de vento e popa, as cidades italianas eram muito beneficiadas nisso, o que fez com que a riqueza e o luxo invadissem os bispados e até mesmos as abadias.

Os mais fervorosos escrupulosos dos séculos XII/XIII tentavam de todas as formas e procuravam emancipar a Igreja do poder do Estado.

Esses escrupulosos se dividiam em duas vertentes totalmente opostas:

1- A nociva que se revoltou não somente contra a riqueza da Igreja, mas contra a própria Igreja!Não sabia distinguir o luxo vicioso, a ganância de seus membros, do essencial, que é o Corpo Místico de Cristo, a Esposa diletíssima, a Noiva do Cordeiro.

2- Os reformadores mendicantes fiéis a Santa Igreja, promulgadora da verdadeira pobreza. Ortodoxos aos mandamentos souberam manterem-se fiéis a Igreja e ao Vigário de Cristo, o Papa.

 

Movimentos Desviados

Dentre os movimentos nocivos havia os Cátaros ou Albigenses ou Bugros. Eles eram dualistas, continuadores do pensamento maniqueu, tão combatido por Santo Agostinho e seus contemporâneos. Admitiam um Princípio Mau, criador da matéria, que se manifestou no Antigo Testamento. Acreditavam que o Princípio Mau seduziu parte dos espíritos celeste e estes foram encarcerados em corpos humanos, logo precisavam de Redenção. O Redentor foi Cristo, que seria um Espírito Superior aos anjos e subordinado a Deus, que morreu somente em aparência e não em verdade.

Rejeitavam tudo que material: o aparato visível da Igreja, o sacerdócio e a hierarquia, os sacramentos, os altares, as imagens, as relíquias, entre outros, juramentos e a própria autoridade civil. Para eles eram lícito deixar-se morrer de fome ou fazer-se matar pelos próprios parentes. Os cátaros não só destruíam a Igreja, mas também como a sociedade civil, o matrimônio, os sacramentos e a autoridade.

Havia também os Valdenses, que se proclamavam de origem apostólica (em Tiago Maior ou Paulo) ou mesmo ter surgido no tempo de Constantino por causa do famoso “Doantio Constatini” que foram os terrenos entregues a Igreja, entre elas a Basílica de Latrão e outras.

Mas na verdade, seu fundador foi rico comerciante Pedro Valdes, Valdo ou Valdux, de Lião (França)

Certa vez impressionado pela leitura da Bíblia (livre exame) doou tudo o que tinha no ano de 1176 e saiu a peregrinar, pregando penitência; juntando-se homens e mulheres. Saíam de dois em dois e eram chamados de “Os Pobres de Lion (ou Lião)” ou “Sabbati” por usarem calçados de lenho ou sabots (tamancos). Criticavam os costumes do clero, por isso não tinha autorização do Bispo de Lião para pregar. Recorreram ao Concilio do Latrão III (Ano de 1179), que lhes permitiu pregar, caso conseguissem autorização episcopal. Os Valdenses não quiseram saber deste acordo e foram excomungados, passando a viver às ocultas, conseguindo adeptos secretos. Proferiram votos de pobreza, castidade e obediência e submeteram –se aos Bispos, sacerdotes e diáconos “ordenados” por Valdes. A sua regra era estritamente a Sagrada Escritura, que foi traduzida para o vernáculo e recomendavam ao povo. Por influência dos Cátaros na Itália, foram se

distanciando da tradição apostólica e cada vez mais ia negando o culto aos Santos, os sufrágios pelos defuntos, o juramento, o serviço militar e conquistando mais e mais adeptos pela Alemanha, Boêmia, Polônia, Hungria... No século XVI, os Valdenses da Lombardia se juntaram com os Calvinistas e por incrível que pareça ainda existem em um pequeno número.

Joaquim de Fiore, um abade cisterciense do século XI muito dado a ascese que criou um teoria do mundo e da Igreja que se chamou mais tarde de Joaquinismo.

Para ele havia três fases a história:

1) A Era Pré-Cristã seria a do Pai, idade da letra, da carne, dos casados, dos leigos;

2) A Era Cristã seria a do Filho, intermediária entre carne e espírito, entre servos e libertos; seria a época dos clérigos, que duraria 42 gerações de 30 anos cada qual (igual como se fala no Evangelho de Mateus 1,17).

3) Terminado o segundo período em 1260, viria a Era do Espírito Santo e dos monges(carismáticos); onde seria a época da liberdade e a plenitude dos tempos, sem clérigos nem sacramento.

Essas ideias afrontavam o conceito “Igreja-Cidade de Deus” tão difundido na Idade Média. Porém ganharam grande apoio por causa da corrente dos Franciscanos ditos “Espirituais”, que proclamavam São Francisco de Assis como novo profeta e legislador enviado por Deus, e outorgando para eles mesmos (Franciscanos Espirituais) o nome de Ordem dos Tempos Finais.

As obras de Joaquim foram condenadas pelo Sínodo de Arles em 1263, mas o movimento continuou , e a ideia de renovar a Igreja tirando dela o poder temporal dominou até o fim da Idade Média, claro que muitas vezes atiçada por motivos políticos.

Vários grupos professaram a teoria joaquimista como verdade de fé, entre eles os Flagelados (grupos que peregrinavam e se flagelavam em público) e vários foram adversários dos Papas no século XIV.

Joaquim de Fiore morreu tido como profeta por seus contemporâneos, mas antes de falecer sujeitou-se ao juízo da Santa Igreja.

Tivemos a Ordem dos Apóstolos ou dos Irmãos Apostólicos que foi fundada por Gerardo Segarelli, que fora rejeitado pela Ordem Franciscana. Com alguns companheiros, pregava a pobreza agressivamente; anunciando o Fim da Igreja para breve (algo que não aconteceu como podem ver). Refugiaram no monte Zebello (Itália), donde saiam para saquear fazendas vizinhas para se sustentar e viviam em comunhão de bens e mulheres.

E por último os Irmãos e Irmãs do Espírito Livre que afirmavam que quem está unido a Deus não pecam, quaisquer que sejam as suas ações; isto lhes permitia entregar-se às paixões. Oração e sacramento seriam inúteis ou até mesmo prejudiciais aos irmãos perfeitos.

 

Movimentos ortodoxos e fiéis a Igreja

Esses movimentos visavam à reforma interna, partindo do princípio de que a Igreja era Mãe e precisava ser respeitada. Entre os que mais se destacaram foram a Patária e as Ordens Mendicantes.

Patária

A Patária (de origem Milanês Patta = trapo; donde pattari = trapeiros) teve origem na segunda metade do século XI na Lombardia, especialmente em Milão, levava consigo o povo simples contra a rica nobreza e o alto clero a ela aparentado. Pregavam a pobreza, tendo em vista especialmente a simonia (venda de favores divinos, bençãos, cargos eclesiásticos, prosperidade material, bens espirituais, coisas sagradas, objetos ungidos, etc. em troca de dinheiro, conforme At 18-19) e o matrimônio dos clérigos, males frequentes naquele lugar. Entre os chefes do movimento pátaro estava Anselmo, bispo de Lucca, que mais tarde se tornaria o Papa Alexandre II(1061-1073), antecessor de S. Gregório VII na luta contra as investiduras que eram os embates da Igreja contra a Monarquia na intromissão das investiduras (nomeações) de bispos e abades e dos próprios papas, tentando restaurar a disciplina eclesiástica.

As Ordens Mendicantes

Para salvar as nobres aspirações à pobreza, Deus quis suscitar no início do século XIII os fundadores das Ordens ditas “Mendicantes”. Eram chamados assim porque viviam em grande parte de esmolas. Eram também pregadores ambulantes, mas inseridos no seio da Santa Igreja.

Entre eles tinha certa particularidade:

1) O culto a pobreza não só individual, mas também comunitária; os irmãos viviam de trabalho manual ou de esmolas, no início provavelmente eram todos leigos.

2) Para tornar mais eficaz a sua pregação, renunciaram habitar em montes ou lugares retirados, como o sistema monástico antigo, a fim de estabelecer-se em centro populosos; renunciavam também a estabilidade no mesmo lugar, coisa que os antigos monges praticavam,

3) Constituíram as chamadas “Ordens Terceiras” (sendo que a primeira era dos Frades; a segunda, a das Freiras), que se abriam as pessoas

casadas, vivendo algo da regra de vida; no dia a dia obrigavam-se a observar normas de oração e práticas penitenciais e caridade. Ainda nos dias de hoje existem essas Ordens, que podem contar entre os seus membros São Luís, Rei da França, Santa Elisabete da Turíngia, Santa Catarina de Sena, Santa Gema Galgani...

 

Os Franciscanos

São Francisco, “um dos Santos que abalaram o mundo”, nasceu em Assis (1181). Até os 23 anos de idade levou uma vida leviana, á procura da glória do mundo; queria ser cavaleiro, como era frequente na Idade Média. Todavia um período de cativeiro e uma doença grave contribuíram para que se convertesse totalmente para Deus. Passou a ser o cavaleiro da pobreza, que amava as aventuras heroicas. – A partir de 1204, pôs-se a levar vida de penitência e oração, tratando de pobres e doentes e reerguendo capelas caídas na região de Assis. Juntaram-lhe doze companheiros, com os quais foi a Roma pedir ao Papa Inocêncio III a licença de pregar – o que lhe foi concedido, contanto que se limitasse á pregação de penitência. Em 1214 quis ir para o Marrocos evangelizar os mulçumanos, mas só chegou até a Espanha. Em 1219/20, foi ao Egito com a intenção de converter o Sultão. Durante esta ausência, os irmãos já começavam a disputar entre si sobre a possibilidade de realizar o ideal de Francisco. Este teve que conceder mitigações do seu projeto de vida, o que lhe foi muito custoso. Por isto abandonou o governo da Ordem em 1221. Em 1223 o Papa Honório III aprovou a terceira e última redação da Regra de S. Francisco. Em sua simplicidade, Francisco rejeitava os estudos; queria que os irmãos rezassem mais do que estudassem. Todavia estes pediam licença para utilizar livros e estudar; já que deviam preparar-se para a pregação; tal desejo era vivo especialmente entre aqueles que, vindo das universidades, se agregavam a Francisco. Finalmente aos 14/09/1224 Francisco, já enfermo, recebeu os estigmas do Senhor Jesus, vindo a falecer aos 03/10/1226.

A Ordem difundiu-se com rapidez extraordinária. No Capítulo geral de 1282 em Estrasburgo, já contava 1583 fundações em 34 províncias. A sua principal tarefa tornou-se a pastoral e as missões. Embora o fundador tivesse rejeitado, os seus discípulos adquiriram grandes méritos nas Universidades. O conflito, porém, entre o ideal da pobreza e a realidade, que se iniciaram quando vivia S. Francisco, desdobrou-se em longos litígios sobre a pobreza. Atualmente ela é dividida em Ordem dos Frades Menores, Ordem dos Frades Conventuais e Ordem dos Frades Capuchinhos.

 

A Ordem dos Pregadores Dominicanos

São Domingos nasceu em Caleruega (Espanha) no ano de 1170. Fez-se cônego regular agostiniano, bem formado em Teologia. Por este último atributo, muito diferia de Francisco; Domingos conhecia os erros doutrinários (especialmente os dos cátaros) de seu tempo e quis opor-lhes uma barreira, utilizando seu senso organizador e prático. Francisco, ao contrário, possuía uma lama de poeta, que queria dirigir-se aos corações, ao passo que Domingos visava ás inteligências.

Em 1215 Domingos fundou em Tolosa (França), onde mais forte era a heresia dos cátaros, a primeira célula de sua futura Ordem: constava de um grupo de pregadores que, após boa preparação teológica e ascética, se dedicariam á pregação. Domingos foi a Roma pedir a aprovação do seu Instituto; recebeu-a de Inocêncio III em 1215, sob a condição de que adotasse uma das regras já existentes, pois já eram muitas as Regras Religiosas existentes na época. O fundador escolheu a de S. Agostinho.

A Ordem Dominicana ou dos Frades Pregadores foi declarada “Medicante” em 1220 pelo seu primeiro Capítulo Geral; todavia a prática da pobreza era ai mais branda do que entre os franciscanos – o que preservou a Ordem dos litígios que agitaram os discípulos de S. Francisco. – S. Domingos morreu em 1221, deixando uma instituição que logo se propagou até a Escócia e a Síria; o Papa Gregório IX confiou-lhe a inquisição contra as heresias.

 

Os Carmelitas

Devem a sua origem a um cruzado, Bertoldo de Calábria (+1195), que em 1156 se retirou com dez companheiros para a gruta do profeta Elias no monte Carmelo (Palestina), a fim de levar vida eremítica; o Patriarca Alberto de Jerusalém deu-lhes uma regra de vida estritamente contemplativa, que Honório III Papa confirmou em 1226. Em 1238 os carmelitas, repelidos pelo Islã, estabeleceram-se, em grande parte, no Ocidente, onde trocaram a vida eremítica pela cenobítico, segundo o modelo dos medicantes.

 

Os Eremitas de S. Agostinho

Sob a regra de S. Agostinho, originaram-se na Itália dos séculos XII e XIII diversas congregações de Eremitas. O Papa Alexandre IV em 1256 resolveu fundir todas essas famílias religiosas na Ordem dos Eremitas de S. Agostinho, que se difundiu por diversos países e, nos séculos XIV – XVI se distinguiram pelo estudo das obras de S. Agostinho.

Paralelamente ao ramo masculino, desenvolvia-se em cada Ordem antiga e medieval um ramo feminino, que se submetia á mesma Regra; era a Ordem Segunda dos Franciscanos (Clarissas), dos Dominicanos, dos Carmelitas, dos Agostinianos...

Conclusão:

Vimos que existiram os que se afastaram dos ensinamentos apostólicos, da Palavra de Deus e da Tradição, trazendo assim um mal incalculável a alma de muitos. Houve também os que seguindo o chamado real do Divino Mestre, obedeceu a Mãe Igreja e deu milhares de frutos a Ela.

Os santos se diferenciam dos hereges nisso: obediência a Santa Igreja, amor a Tradição Apostólica, rompendo totalmente com o mundo, não levantando bandeira de facções abortivas, de comunismo barato ou numa simples venda de patrimônio.

A Igreja é soberana na Terra, e precisa de sua riqueza para que ninguém possa lhe dizer o que tem que ser feito a não ser o próprio Senhor dela, Jesus Cristo.

Platão, no seu livro intitulado A República nos diz que: “numa sociedade ideal, é conveniente a riqueza estar nas mãos de homens devotados às coisas do espírito” (referindo-se ali aos filósofos). E quem mais seria assim senão a Igreja, católica por vocação e por eleição?

Lembremo-nos que também com esse mesmo “sentimento nobre” Judas Iscariotes deu à infeliz ideia de vender o bálsamo que Maria lavara os pés do Senhor por 300 denários (mais tarde ele O trairia por 30 moedas de prata) e sabiamente foi rebatido:

“Deixa-a; que ela o conserve para o dia da minha sepultura! Pois sempre tereis pobres convosco; mas a mim nem sempre tereis”. (S. João 12, 7-8)

Vender o Vaticano todo mundo quer, mas vender o Museu do Louvre, vender a Estátua da Liberdade, a Torre de Piza, as Pirâmides do Egito, vender o Taj Mahal, os Jardins da Babilônia ... ou acabar com a industria pornográfica que rende mais de 20 bilhões por ano, se somente os consumidores de pornografia “doassem” seu dinheiro, quem sabe boa parte da população não seria alimentada e quiçá estes não iriam para o Inferno!

Fica ai a dica para meditação!

 

PAX VOBISCUM

Por Leonardo de Souza

Leia também: Opção preferencial "sem" os pobres!

 

Fonte: Curso de História da Igreja – Dom Estevão Bettencourt O.S.B.

Para aprofundar mais sobre o tema: Bihlmeyer-Tuchle, História da Igreja, Vol2. Ed. Paulinas. Pierrard,P. ,História da Igreja. Ed. Paulinas 1986. Rogier- Aubert Knowles, Nova História da Igreja, Vol 2 Ed. Vozes.