Sexta-Feira Santa de 2015

03/04/2015 12:21
"Nas vossas mãos entrego o meu espírito, vós me remistes, Senhor, Deus fiel." (Salmos 31,6)
 
A Liturgia da sexta-feira santa é comovente contemplação do mistério da Cruz que visa não só comemorar, mas levar todo fiel a reviver a dolorosa Paixão do Senhor. Apresentam-na dois grandes textos: o profético, atribuído a Isaías (Is 52,13;53,12) e o histórico de João (18, 1-19,42). A enorme distancia de mais de sete séculos que os separa é anulada pela impressionante coincidência dos fatos referidos pelo profeta como descrição dos sofrimentos do Servo de Javé e pelo Evangelista como narração do último dia terreno de Jesus. “Muitos se espantaram como ele – diz Isaías – tão desfigurado estava que havia perdido a aparência humana... desprezado e refeitado pelos homens, homem das dores e experimentado nos sofrimentos” (52, 14; 53,3). João com os outros evangelistas, fala de Jesus traído, insultado, esbofeteado, coroado de espinhos, escarnecido, apresentado ao povo como rei de comédia, condenado, crucificado.
 
A causa de tanto sofrimento é indicada pelo profeta: “Foi castigado por nossos crimes, esmagado por nossas iniquidades”; é mostrado também o valor expiatório: “O castigo que nos salva caiu sobre ele; por suas chagas fomos curados” (Is 53,5). Nem falta alusão ao angustioso sentimento de repulsa por parte de Deus – “e o julgávamos castigado, ferido por Deus e humilhado” (ibidem,4) – sentimento que exprimiu Jesus na cruz com o grito: “Meu Deus, meus Deus, por que me abandonastes?” (Mt 27,46). Mas, acima de tudo, ressalta com clareza a espontaneidade do sacrifício: livremente “se oferece (o Servo de Javé) em expiação” (Is 53,7.10); livremente se entrega Cristo aos soldados, depois de tê-los feito cair por terra com uma só palavra (Jo 18,6), e livremente se deixa conduzir à morte, ele que havia dito: “Ninguém me tira a vida, mas eu a dou por mim mesmo” (Jo 10, 18). Até o glorioso desfecho desse voluntário padecimento fora entrevisto pelo profeta: “Após as aflições de seu coração, alegrar-se-á... eis por que – diz o Senhor – dar-lhe-ei em prêmio multidões ... porque se ofereceu a morte” (Is 53,11.12). E aludindo Jesus à Paixão disse: “Quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32). Tudo isto demonstra estar a Cruz de Cristo no centro da historia da salvação, já entrevista no Antigo Testamento, através dos sofrimentos do Servo de Javé, figura do Messias que iria salvar a humanidade não com o triunfo terreno, mas com o sacrifício de si. Eis o caminho que cada fiel deve percorrer para ser salvo e salvador.
 
Entre as leituras de Isaías e de João, insere a Liturgia um trecho da carta aos Hebreus (4,14-16;5,7-9). Jesus, Filho de Deus, é apresentado na sua qualidade de sumo e único Sacerdote, todavia não tão distante dos homens que “não saiba compadecer-se de nossas enfermidades, uma vez que, à nossa semelhança, experimentou-as todas, com exceção do pecado”. É a provação de sua vida terrena e, sobretudo de sua Paixão, pela qual experimentou em sua carne inocente todas as asperezas, sofrimentos, angustias e fraquezas da natureza humana.
 
Assim é, ao mesmo tempo, Sacerdote e Vítima que oferece em expiação dos pecados dos homens não sangue de touros ou de coerdeiros, mas o próprio Sangue. “Nos dias de sua vida mortal, ofereceu orações e súplicas com fortes gemidos e lágrimas a quem o podia libertar da morte.” É um eco da agonia do Getsêmani: “Abba, Pai! Tudo te é possível, afasta de mim este cálice! Porém não o que eu quero, mas o que queres tu” (Mc 14,36). Na obediência à vontade do Pai, entrega-se à morte, e depois de haver experimentado suas amarguras, é libertado pela ressurreição, tornando-se, “causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem” (Hb 5,9). Obedecer a Cristo, Sacerdote e Vítima, significa aceitar com ele a Cruz, abandonando-se com ele à vontade do Pai: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lucas 23,46; cf salmo resp.).
 
Mas é a morte de Cristo imediatamente seguida pela glorificação. Exclama o centurião de guarda: “Verdadeiramente este homem era justo!”, e todos os presentes “vendo o que se passava, voltaram, batendo no peito” (Lc 23,47-48).
 
Segue a Igreja o mesmo itinerário: depois de ter chorado a morte do Salvador, explode em hinos de louvor e se prostra em adoração: “Adoramos vossa Cruz, Senhor, louvamos e glorificamos vossa santa ressurreição, pois só pela Cruz entrou a alegria em todo o mundo”. Com os mesmos sentimentos convida a Liturgia os fiéis a se alimentarem da Eucaristia que, jamais tanto como hoje, resplandece na sua realidade de memorial da morte do Senhor. Ressoam no coração as palavras de Jesus: “Isto é meu Corpo que é dado por vós; fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19) e as de Paulo: “Todas as vezes que comeis deste pão e bebeis deste cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha” (ICor 11,26).
 
“Ó Cristo Jesus, prostrado ante a vossa cruz, eu vos adoro. Força de Deus, vós vos mostrais abatido pela fraqueza para ensinar-nos a humildade e confundir nosso orgulho. Ó Pontífice cheio de santidade, que passastes pelas nossas mesmas provações a fim de vos assemelhar a nós e poder compadecer-vos das nossas enfermidades, não me abandoneis a mim mesmo, porque sou só fraqueza! Esteja vossa força em mim para não sucumbir ao mal.” (C. Marmion, Cristo nos seus mistérios, 14, p.237)
 
Hélder Rodrigues Filho
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