Igreja Una Santa Católica e Apostólica


Quinta-Feira Santa de 2015

01/04/2015 13:53

"Mas, que poderei retribuir ao Senhor por tudo o que ele me tem dado? Erguerei o cálice da salvação, invocando o nome do Senhor.” (Salmos 116, 12-13).

A celebração do mistério pascal, centro e vértice da história da salvação, abre-se com a Missa vespertina da quinta-feira santa, que comemora a Ceia do Senhor.

As leituras incidem todas sobre o tema da Ceia Pascal. Recorda o trecho do Êxodo (12, 1-8; 11-14) a instituição da Páscoa antiga, quando ordenou Deus aos hebreus imolarem em casa família “um cordeiro perfeito”, tingirem com seu sangue as portas das casas para que fossem poupadas do extermínio dos primogênitos e, em seguida, comê-lo às pressas, como quem vai viajar. Naquela mesma noite, preservados pelo sangue do cordeiro e nutridos com sua carne, deveriam iniciar a marcha para a terra prometida. Teriam, depois, de repetir o rito cada ano, em memória do fato. “É a Páscoa em honra do Senhor” (Ex. 12,11), que comemora sua “passagem” entre os israelitas para libertá-los da escravidão do Egito.

Escolhe Jesus a celebração da Páscoa hebraica para instituir a nova, a sua Páscoa, em que ele é o verdadeiro “Cordeiro perfeito”imolado e consumido pela salvação do mundo. Ao sentar-se à mesa com os seus, inicia o novo rito. “De fato, o Senhor Jesus, na noite em que foi traído – lê-se na segunda leitura (I Cor 11, 23-26) – tomou o pão e, depois de ter dado graças, partiu-o e disse: ‘Isto é o meu corpo, que será entregue por vós...” Do mesmo modo, tomou o cálice, dizendo: ‘Este cálice é a nova Aliança no meu sangue’.” Aquele pão milagrosamente transformado no Corpo de Cristo, ambos oferecidos, mas separadamente, eram naquela noite o anuncio e a antecipação da morte do Senhor, na qual ele viria derramar todo o Sangue; e são hoje, seu memorial vivo.“Fazei isto em memória de mim.” Nesta luz apresenta São Paulo a Eucaristia, quando diz: “Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor”.

É a Eucaristia “Pão vivo” que dá aos homens a vida eterna (João 6, 51), é o “memorial” da morte de Cristo, é seu Corpo “dado” em sacrifício, é Seu Sangue “derramado... em remissão dos pecados” (Lucas 22,19; Mateus 26,28). Nutridos com o Corpo de Cristo, aspergidos e lavados com seu Sangue, podem os homens suportar as asperezas da viagem terrena, passar da escravidão do pecado à liberdade dos filhos de Deus, da penosa travessia do deserto à terra prometida, a casa do Pai.

“Tomai, e comei deles todos: isto é meu Corpo... tomai e bebei todos: este é o cálice do meu Sangue”.  Caso tivesse o costume diminuído nos fiéis, convida-os a Liturgia de hoje a sacudirem o torpor, a penetrarem com olhar mais profundo e amoroso a inefável realidade do mistério que se cumpriu, pela primeira vez, no cenáculo, sob os olhares atônitos dos discípulos e que hoje se prolonga no altar. É sempre o Senhor Jesus que, na pessoa de seu ministro, realiza o gesto consecratório e que hoje, aniversário da instituição da Eucaristia e vigília da morte do Senhor, adquire atualidade impressionante;

“Tendo (Jesus) amado os seus... amou-os até o fim”, diz João ao começar a narração da última Ceia (João 13,1-15); “na noite em que ia ser entregue”, observa Paulo, ao narrar a instituição da Eucaristia. Tremendo contraste: da parte de Cristo, amor infinito, “até o fim”, “até a morte”; da parte dos homens, traição, negação, abandono. É a Eucaristia resposta do Senhor à traição de suas criaturas. Parece ansioso por salvar os homens assim tão fracos e antecipa misticamente sua morte, oferecendo-lhes em alimento aquele Corpo que em breve sacrificará na cruz e aquele Sangue que derramará até à ultima gota. Se, dentro de poucas horas, deste mundo o arrebatará a morte, a Eucaristia perpetuará aqui sua presença real e viva até o fim dos séculos.

Mas, com o Sacramento do amor, deixa Jesus à Igreja também o testamento do amor: o seu “novo mandamento”. Imediatamente vêem os doze ajoelhar-se o Mestre diante deles em atitude de servo: “derrama água numa bacia, e começa a lavar os pés dos discípulos”. Conclui-se a cena com a admoestação: “Se portanto eu, Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros”. Não se trata tanto de imitar o gesto material, quanto a atitude de humildade sincera nas relações recíprocas, considerando-se e comportando-se uns como servos dos outros. Só esta humildade torna possível o cumprimento do preceito que Jesus está para dar: “Dou-vos um mandamento novo, que vos ameis uns aos outros como eu vos amei” o Lava-pés, a instituição da Eucaristia, a morte de cruz indicam como e até que ponto havemos de amar os irmãos, para cumprir o preceito do Senhor.

Jesus, vinde, tenho os pés imundos. Fazei-vos sevos meu. Derramai água na bacia; vinde, lavai-me os pés. Bem o sei, temerário é o que vos digo, mas temo ameaça de vossas palavras: “Se não te lavar os pés, não terás parte comigo”. Lavai-me, portanto, os pés para que tenha parte convosco. Mas, que digo, lavai-me os pés? Pôde dizê-lo Pedro que necessitava de lavar só os pés, porque estava todo limpo. Eu, ao contrario, uma vez lavado, preciso daquele batismo do qual vós, ó Senhor, dizeis: “Quanto a mim, com outro batismo devo ser batizado”. (Orígenes, Das orações dos primeiros cristãos, 63).

Hélder Rodrigues

 

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