Lectio Divina do 2º Domingo da Quaresma

16/03/2014 17:34

 - Meu caminho de transfiguração -

“Se num piso nivelado pões um tronco torto, ele não se encaixa, não se adapta. A vontade de Deus é reta; a tua, torta. Parece-te fora a de Deus porque não podes encaixar-te nela? Endireita a tua, não queiras entortar a d’Ele. Queres que haja união? Corrige-te”. (Santo Agostinho).

Trata a Sagrada Liturgia de hoje do convite à transfiguração, à mudança de vida, de valores, de prioridades, que Nosso Senhor deixou aos discípulos no Monte Tabor: “Ele que nos chamou com uma vocação santa, não devido às nossas obras, mas em virtude do seu desígnio e da sua graça, que nos foi dada em Cristo Jesus desde toda eternidade” (2Tm 1,9); e mediante essa Graça Santificante, mediante Seu favor, sermos capazes de sairmos de nós mesmos, de corrigirmos nosso rumo, e fazermos um caminho de verdadeira transfiguração. O Papa Emérito Bento XVI nos disse: “O Evangelho da Transfiguração do Senhor põe diante dos nossos olhos a glória de Cristo, que antecipa a ressurreição e que anuncia a divinização do homem. A comunidade cristã toma consciência de ser conduzida, como os apóstolos Pedro, Tiago e João, «em particular, a um alto monte» (Mt 17,1), para acolher de novo em Cristo, como filhos no Filho, o dom da Graça de Deus”.

“Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça, venha a vossa salvação” (Sl 32); e ainda, “Meu coração disse: Senhor, buscarei a vossa face. É vossa face, Senhor, que eu procuro, não desvieis de mim o vosso rosto” (Sl 26); suplica assim a Igreja de Cristo, num profundo clamor à Trindade, de adesão à Sua Santíssima Vontade e de abertura à Graça, para que se cumpra em nós Suas maravilhas. E se no primeiro domingo da quaresma nos recordou a realidade maravilhosa de criação que é o homem, mas também a de fraquezas e de pecados; o segundo domingo nos faz olhar para o alto, ou seja: viver minha quaresma é também subir a um monte, ao encontro de Cristo Transfigurado, por isso, um caminho percorrido ora com alguns companheiros, ora a sós com o Senhor... Será o caminho de transfiguração.

É o monte um lugar especial, demasiado rude para ser habitação do homem, mas também demasiado “terreno” para ser morada de Deus, é um “meio-termo” em que Deus e o homem se encontram, o homem com uma subida penosa, e Deus com uma descida humilde. E só quem aposta a sua vida n’Aquele que é fiel (salmo responsorial) pode chegar ao cume.

Temos diante dos olhos Abraão, homem repleto do querer de Deus e de Sua Graça. Homem que correu o risco da fé, e pela sua fé a terra inteira, já transformada em deserto, transforma-se em lugar de benção (primeira leitura). Abraão não vê ainda, mas sabe: na descendência numerosa, acreditada por fé, ele no seu coração contempla exultando o dia do Messias (Jo 8,56). Aquilo que para Abraão foi, portanto uma vocação para caminhar na escuridão, para nós cristãos é chamamento a caminhar na luz, porque a face de Deus já se manifestou em Cristo Jesus; é o que nos afirma a segunda leitura, unindo a temática da vocação ao da manifestação do Salvador.

No monte, a face de Jesus resplandece como face do Filho, revelado pelo Pai; a nuvem, sinal do poder do Espírito Santo, envolve também os discípulos, introduzindo cada um deles ali, na comunhão das Pessoas Divinas (Evangelho), a experiência de fé com a Trindade, que passa pela aceitação na nossa vida do mistério da Cruz, para eu assim, neste caminho de transfiguração, possamos entrar na glória do Reino.

O coração desta lectio divina é a escuta atenta ao Senhor Jesus, que cumpre em si as Escrituras, Ele que é Palavra única do Pai, e também a única “tenda”, a única morada de Deus entre os homens, Palavra dura também a nós, que da doçura do monte Tabor, embora necessária para aliviar na oração e na entrega, nos volta a impelir para um caminho de serviço, caminho de nossa transfiguração, que exige esforço, confiança, renúncia e obediência. Embora não estejamos sozinhos neste caminho, porque Ele sobe e desce do monte conosco, nossa vida deve ser marcada pela experiência profunda e pessoal com o Senhor, pois somente aquele que crer caminhará com segurança, pois requer abandono em Sua provisão e sustento. E a vida nova que, não pode mudar os acontecimentos passados, já pode mudar o nosso coração e iluminar o mundo com um novo olhar, com nossa face transfigurada pela Graça, pela fé no Cristo, e ir para a terra que o Senhor nos indicar. Não receie em atender ao chamado de Deus, pois sobre o cristão está estabelecida uma promessa de bênçãos para onde Ele nos levar.

Neste domingo, peçamos à Trindade a Graça da prontidão ao ouvir Sua voz que nos chama e que nos indica. Que nosso coração esteja firmado na força do Espírito Santo, numa obediência singular como Abraão, de forma que nossos pés não retrocedam. Que o Senhor nos faça servos prontos a romper como que for preciso para ver estabelecida Sua Santíssima Vontade em nossa vida. Enfrentando o difícil deserto da vida, as subidas penosas aos montes, ao duro madeiro das cruzes quotidianas, mas caminhando na luz de Deus, sendo abençoados por onde passarmos. Que vele por nós a Mãe da obediência, da graça e do amor, nos dando por amparo nesta quaresma seu regaço acolhedor.

Santa semana a todos e Deus abençoe. 

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