Igreja Una Santa Católica e Apostólica


Lectio Divina do 1º Domingo da Quaresma

09/03/2014 19:42

Lectio Divina do 1º Domingo da Quaresma

 - O mistério do pecado -

“Desejo a confiança das Minhas criaturas; exorta as almas a uma grande confiança na Minha inconcebível misericórdia. Que a alma fraca, pecadora, não tenha medo de se aproximar de Mim, pois, mesmo que seus pecados fossem mais numerosos que os grãos de areia da terra, ainda assim seriam submersos no abismo da Minha misericórdia”. (D. 1059 – Diário de Santa Faustina).

Começamos a lectio de hoje com a Imitação de Cristo, Capítulo 20, nº 2, confessando nossa própria fraqueza e misérias desta vida: “Olhai, pois, Senhor, para esta minha baixeza, que conheceis perfeitamente. Compadecei-vos de mim e tirai-me da lama, para que não fique atolado, e arruinado para sempre. É isto que a miúdo me atormenta e confunde em vossa presença: o ser eu tão inclinado a cair, e tão fraco a resistir às paixões. E embora não me levem ao pleno consentimento, muito me molestam e afligem seus assaltos, e muito me enfastia o viver sempre nesta peleja. Nisto conheço minha fraqueza, que mais depressa me vem do que se vão essas abomináveis fantasias da imaginação”.

Encontramo-nos numa hora muito significativa da vida de Jesus, e nesta data a Sagrada Liturgia nos propõe uma forte meditação sobre o pecado. E na 1ª leitura (Gn 2,7-9; 3,1-7), o texto apresenta-nos um Deus muito próximo, que se inclina sobre o pó para dele tirar o Homem e animá-lo com o espírito de vida, fazendo dele um ser vivente. Um Deus apaixonado e preocupado em corrigir Sua criação, visto que a serpente, criatura portadora da sugestão maligna, insinua a dúvida no coração do homem, de que o limite dado pelo próprio Deus seja mal, e que deva ele ser violado para o homem seja como Deus. Rompendo a consciência do seu limite de criatura, com o seu pecado o homem afirma-se deus de si mesmo, mas as consequências são trágicas: quebrando a harmonia que o liga a Deus, perde a paz consigo mesmo e descobre que está despido, indefeso, à mercê de qualquer agressão. Sabemos que “toda ação provoca uma reação de igual intensidade e em sentido contrário”, e isso não se tratando de castigo, mas de consequência; portanto, um erro sempre traz adversidades e a disciplina acaba se fazendo necessária. Agora, em nossa vida, particularmente, reconhecemos que às vezes é difícil de entender e aceitar esta “disciplina”, e que dentre as muitas maneiras que Deus tem para nos corrigir, a solidão e a tribulação estão relacionadas, e vemos claramente isso acontecer nos nossos primeiros pais. O relacionamento entre Deus e o homem foi afetado e, toda a criação passou a sofrer com isso... Mas a disciplina de Deus será sempre a de nos atrair para mais perto Dele, de colocar em nosso coração uma saudade, um desejo indescritível de Sua presença, uma sede que só é saciada quando do Seu Coração Misericordioso bebemos de Sua água viva... E isso, através de Jesus Cristo, Senhor Nosso. Como é confortante olhar para Deus e saber que é um Pai muito amoroso, apaixonado, que Ele nos disciplina, que está, contudo, com os Seus braços sempre prontos a nos erguer e nos ajudar a superar toda e qualquer perda. Ele nos pede que jamais fiquemos prostrados em uma queda; ergamos a cabeça e vejamos que Ele já está com Suas Santíssimas mãos estendidas para nos levantar.

No Salmo Responsorial (Sl 50,3-6.12-14.17), o belíssimo Miserere, deve-se exprimir nosso pecado, o pecado de todo homem na sua radicalidade. E aqui podemos nos colocar diante da misericórdia de Deus, confiando que Ele tudo pode e quer sanar, regenerar, recriar todas as coisas com a santidade e a novidade do Seu Santo Espírito em nossa vida. Deixemo-nos hoje ser transpassados pelo olhar misericordioso de Deus que é garantia de salvação.

Na  2ª leitura (Rm 5,12-19), o Santo Apóstolo Paulo nos expõe os fundamentos de nossa fé cristã, em particular o princípio da justificação por meio da fé, ou seja, da adesão ao Cristo Senhor, que ele contrapõe não às obras de caridade, mas à observância da lei de Moisés. Não é das obras da Lei que nos vem salvação, mas de Cristo. O Adão originário é prefiguração do novo Adão, Cristo: se em Adão a Humanidade padeceu, em Cristo a vida superabundou para todos. Necessitamos recordar diariamente que o sacrifício de Jesus é também a morte do velho homem, do primeiro Adão que habita em todos nós. Quando olhamos para a Cruz do Senhor e reconhecemos nossos erros e limitações, a justiça e misericórdia de Deus se revelam sobre nós. É através do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, derramado no madeiro, que alcançaremos misericórdia... sempre manifestada plenamente no Santo Sacramento da Penitência, assim nos tornando livres da culpa e do pecado, nos tornando vitoriosos e triunfantes em Deus que nos adquiriu a liberdade em Seu amor. Experimentemos constantemente esse derramar do Sangue de Jesus sobre nós no Seu Sacramento, andemos em novidade de vida, buscando cada dia a conversão e Sua Graça, como dom gratuito a todos nós.

Por fim, no Santo Evangelho (Mt 4,1-11), Nosso Senhor é conduzido pelo Espírito ao deserto por um período de intensa oração e jejum, e é nesta situação de fragilidade humana que O surpreende o tentador. As tentações a que Jesus é exposto é de caráter essencialmente messiânico: realizar fáceis prodígios que satisfaçam as necessidades materiais, que chamem atenção e exaltem a vontade de possuir. O Filho de Deus rejeita o messianismo triunfal e espetacular, numa opção radical de escuta e obediência. Ora, se a tentação dos nossos primeiros pais era situada num jardim luxuriante, que sustentava o homem com suas dádivas, este episódio de que Jesus é protagonista é situado no deserto, onde falta tudo e onde é mais difícil manter-se firme na confiança e obediência em Deus. E aqui está Nosso Senhor, colocando-se obediente em nosso lugar e suportando a tentação no deserto. Não temos como medir a pressão que o inimigo fez contra Ele, mas Jesus resistiu e nos deixou o ensinamento de como vencer as tentações de nossa vida, que é viver da Palavra que procede da boca de Deus, de viver em obediência a ela, alimentados por ela, e é tão necessária a nós neste deserto quaresmal. Quando nos alimentamos dessa Palavra e a guardamos em nossos corações, compreendemos a fraqueza do nosso coração humano e o poder da Graça de Deus para dominar todos os impulsos carnais, lutando contra as tentações e fraquezas. Diz assim um dito dos Padres do Deserto, dos homens e mulheres que viveram da Palavra de Deus, acerca das lutas diárias: Mãe Teodora disse, "vamos nos esforçar para entrar pela porta estreita. Como as árvores que não enfrentaram as tempestades de inverno e não produzem fruto, assim é conosco; esta vida presente é uma tempestade e é através de muitas tribulações e tentações, que podemos obter a herança no reino dos céus”. No “deserto” da vida presente, alimente-se da Palavra de Deus e guarde-a em seu coração. Deus quer, através da Sua Palavra, fazer de cada um de nós vencedores sobre a tentação, sobre o pecado. Tomemos posse da Palavra que o Senhor nos dá neste dia.

E peçamos humildemente ao Senhor que quando tropeçarmos ou cairmos, não fiquemos prostrados na fraqueza do pecado, mas que olhemos para cima, erguendo nossas mãos e segurando forte nas mãos Dele, de Nosso Pai-Deus. Elas nos sustentarão e nos afastarão das tentações e opressões do inimigo. Que Sua disciplina na minha vida seja sempre para me deixar mais forte neste deserto, neste vale de lágrimas, pois assim não irei tropeçar. Seu amor apaixonado, misericordioso é o que me conduz de volta ao caminho da paz e Sua Palavra é lâmpada para os meus passos. Que nos guarde a Nossa Boa e Terna Mãe na perseverança e na correspondência daquilo que nos disciplina e nos ensina o Seu amado Filho. Amém.

Santa e abençoada semana a todos. A paz.

Por Carlos Guilherme Pereira Junior

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