Lectio Divina 34º Domingo do Tempo Comum - Solenidade de Cristo Rei do Universo

22/11/2014 19:09

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

“Quando o Filho do Homem vier em sua glória, acompanhado de todos os anjos, então se assentará em seu trono glorioso” (Mateus 35, 21).

Com a Solenidade de Cristo, Rei do Universo, encerramos o Ano Litúrgico. No próximo domingo, será o primeiro domingo do Advento, um novo Ano Litúrgico, início da preparação para o Natal. Ainda que as festas da Epifania, Páscoa e Ascensão sejam também festas de Cristo Rei e Senhor de todas as coisas criadas, a festa de hoje foi especialmente instituída para nos mostrar Jesus como único soberano de uma sociedade que parece querer viver de costas para Deus.

“Perante os que reduzem a religião a um cúmulo de negações, ou se conformam com um catolicismo de meias-tintas; perante os que querem por o Senhor de cara contra a parede, ou colocá-Lo num canto da alma, temos de afirmar, com as nossas palavras e com o nosso testemunho, que aspiramos a fazer de Cristo um autêntico Rei de todos os corações, também dos deles” (São Josemaria Escrivá, Sulco, nº 608).

Jesus veio ao mundo para buscar e salvar o que estava perdido; veio em busca dos homens dispersos e afastados de Deus pelo pecado. E como estavam feridos e doentes, curou as suas feridas (cfr. Ez 34,11-12.15-17). Tanto os amou que deu a vida por eles. Como Rei, veio para revelar o amor de Deus, para ser o Mediador da Nova Aliança, o Redentor do homem. No Prefácio da Missa fala-se de Jesus que ofereceu ao Pai “um reino de verdade e de vida, de santidade e de graça, de justiça, de amor e de paz”.

Hoje é talvez a festa mais importante do ano litúrgico para os nossos tempos atuais: a Festa de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo. Não digo que seja a festa litúrgica mais importante em si mesma, pois é claro que temos o Natal, a Páscoa, a Epifania e tantas outras festas tão importantíssimas. Digo que ela é a mais importante pelas circunstâncias em que vivemos, pelo momento da história em que vivemos. Momento de apostasia das nações. Não há infelizmente outra palavra para a definição desse nosso momento atual e histórico. As nações abandonaram completamente Deus, abandonaram completamente Nosso Senhor, abandonaram completamente a sua Igreja. Constatando o estado de coisas já em 1925, o Papa Pio XI, com grande sabedoria, instituiu a Festa de Cristo Rei. O Santo Padre Pio XI sabia que a melhor maneira de inculcar no povo e lembrar ao povo o reinado social de Jesus Cristo é por meio da liturgia. Uma liturgia que proclamasse claramente o reinado de Nosso Senhor sobre todas as coisas. Rei das almas e das consciências. Rei das inteligências e das vontades. Rei das famílias, da cidade, do povo, da nação, do mundo todo, de todas as coisas.

 O drama de nossa época é o abandono completo de Cristo e de sua Igreja por parte da sociedade. Daí a importância da festa de Cristo Rei ser celebrada em conformidade com a verdadeira intenção com que foi criada, ou seja, para que se afirme a realeza social de Cristo Jesus. Mas se perguntássemos assim: “essa festa não diz respeito ao reinado de Cristo com a sua vinda gloriosa”? Não. Essa festa diz que Nosso Senhor deve reinar desde já, em todos os aspectos da vida humana, do aspecto mais individual ao mais social. E por isso a celebramos agora. Ele reina desde já. Desde o íntimo de nossas consciências aos atos públicos do governo, em todas as coisas deve Cristo reinar.

Essa festa de Cristo Rei bem compreendida é o terror dos inimigos da Igreja, é o terror do mundo e do demônio. Ela se opõe frontalmente ao laicismo, esse erro perverso que afirma que o Estado não deve ter religião ou que o Estado deve dar iguais direitos a todas as religiões. Pio XI classificava o laicismo como peste da nossa época. O laicismo, fruto do protestantismo e da filosofia moderna, busca construir o reino do homem. Por trás da bandeira do laicismo, excluindo toda possiblidade do reino social de Cristo, se unem as forças dissolventes do liberalismo, da maçonaria, do socialismo, do comunismo, para citar alguns dos inimigos da Igreja.  Mas se essa festa é o terror dos inimigos da Igreja, Ela deve ser de um grande consolo para os católicos e celebrada com muita alegria. (Ler Quas Primas, Encíclica de Pio XI sobre a festa de hoje).

Nosso Senhor Jesus Cristo sempre foi aclamado como Rei pela Santa Igreja. Ele sempre foi aclamado Rei em virtude de sua divindade, sem dúvida. Assim como Deus Pai governa todas as coisas e sustenta o ser de todas as coisas, também o Filho, o Verbo, faz a mesma coisa. Mas Cristo é Rei também como homem, em virtude de sua união com o Verbo de Deus, a tal ponto que há uma só Pessoa, a divina, e duas naturezas, a divina e a humana. Em virtude dessa união, a humanidade de Cristo possui uma excelência e uma dignidade que não podemos medir e que é superior a todas as outras juntas. Não há nenhuma outra dignidade que possa se comparar a ela. Além disso, Cristo é nosso Rei por direito de aquisição. Cristo nos redimiu nos resgatou do pecado, do qual não poderíamos jamais sair sozinhos, pois o pecado é ofensa infinita a Deus e somos incapazes de retribuir a Deus com uma ação que lhe seja infinitamente agradável. É somente pelo sangue de Cristo derramado na cruz que podemos nos livrar do pecado. Nosso Redentor, tendo pagado o preço pelo nosso pecado, deve ser cultuado e adorado como Senhor, como Deus e como Rei.

Ao examinar hoje a nossa consciência, percebemos pela Palavra, que este reinado de Cristo em nossas almas se propaga a partir de dentro, de nossa docilidade à graça. E assim, como o sol torna mais brilhante o cristal que toca e penetra com seu raio, assim o Espírito Santificador – torna possível em nós esse reinado – torna mais luminosa as almas onde ele habita. Devido a tal presença – a do reinado de Cristo – tornam-se por sua vez, outros tantos focos que difundem em torno de si a graça e a caridade.

“Quanto a nós todos, por divina misericórdia, súditos e filhos seus, queira Deus que levemos este jugo, não de má vontade, mas com prazer, com amor e santamente. Assim, no decorrer de uma vida pautada pelas leis do Reino dos Céus, recolheremos alegres, grande cópia de frutos, e mereceremos que Cristo, reconhecendo-nos por bons e fiéis servidores de seu reino terrestre (cfr. Mt 25,31-46) , nos admita, depois, a participar com Ele da eterna felicidade e da glória sem fim em seu reino celeste “Pio XI - Quas Primas, 35”.

“Que Viva Cristo Rei” – foram essas as palavras do Beato José Sanches antes do seu martírio.

Laus Deo In Aeternum

Walter Silva

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