Lectio Divina 30º Domingo do Tempo Comum

25/10/2014 12:03

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

O Evangelho da Missa deste domingo convida-nos à alegria, porque é um apelo ao amor. O mandamento do amor é ao mesmo tempo o da alegria, pois esta virtude “não é diferente da caridade, mas um certo ato e efeito seu” dizia São Tomás de Aquino. Por isso, um dos elementos mais claros para medirmos o grau da nossa união com Deus é verificarmos o nível de alegria e bom humor que pomos no cumprimento do dever, no trato com os outros, à hora de enfrentarmos a dor e as contrariedades.

Quando os fariseus se aproximaram de Jesus e lhe perguntaram qual era o principal mandamento da lei, Jesus responde-lhes: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças. O segundo é semelhante a ele: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. É disto que precisamos: de procurar o rosto de Deus com tudo o que temos e somos, e de servir o nosso próximo, abrindo-nos a eles e esquecendo-nos de nós mesmos, fugindo da preocupação obsessiva pelo conforto, abandonando a nossa vaidade e orgulho, colocando o olhar longe de nós mesmos, procurando ter como meta sempre o amor.

Muitos pensam que serão mais felizes quando possuírem mais coisas, quando forem mais admirados, e se esquecem de que só necessitamos de “um coração enamorado”. E nenhum amor pode saciar o nosso coração – que foi feito por Deus para alcançar a sua plenitude nos bens eternos – se vier a faltar o Amor com maiúscula. Os outros amores limpos – se não forem limpos, não serão amor – só adquirem o seu verdadeiro sentido quando se procura o Senhor sobre todas as coisas. É por isso que nem o egoísta, nem o invejoso, nem quem tem colocada a sua alma nos bens da terra... podem saborear a alegria que Jesus prometeu aos seus discípulos(cfr. Jo 16, 22), porque não saberão amar, no sentido mais profundo e nobre da palavra. “Quando é perfeito, o amor tem esta força: leva-nos a esquecer o nosso próprio contentamento para contentar Aquele a quem amamos. E verdadeiramente é assim, porque, ainda que sejam grandíssimos os trabalhos, demonstram serem doces quando percebemos que contentamos a Deus”(Santa Teresa).

“Senhor, minha rocha, meu refúgio, meu escudo, minha força e salvação, meu baluarte... Eu te amo, Senhor, Tu és a minha fortaleza”, rezamos a Nosso Senhor com as palavras do Salmo responsorial. N´Ele encontramos a segurança e tudo aquilo de que precisamos, como também a alegria e a paz em qualquer situação. Por isso, não deixemos nunca de procurá-lo, diariamente, num trato pessoal e íntimo. A estabilidade da nossa alegria depende disso.

A alegria e a paz que bebemos nessa fonte inesgotável que é Cristo, temos de levá-las aos que Deus colocou mais perto de nós, isto é, aos nossos lares, que nunca devem ser tristes, nem tenebrosos, nem tensos pelas incompreensões e egoísmos, mas “luminosos e alegres” assim ensinava São José Maria Escrivá, como foi aquele em que Jesus viveu com Maria e José.

Quando se diz em linguagem figurada que esta ou aquela casa “parece um inferno”, vem-nos logo à mente um lar sem amor, sem alegria, sem compreensão, sem perdão, sem Cristo. Um lar cristão deve ser alegre, porque nele está o Senhor que o preside, e porque ser discípulo seu significa, entre outras coisas, viver essas virtudes humanas e sobrenaturais a que está tão intimamente unida à alegria: generosidade, cordialidade, espírito de sacrifício, simpatia, magnanimidade, empenho por tornar mais amável à vida de todos.

Temos também de levar esta alegria serena, resultado de um trato diário com o Senhor, ao nosso lugar de trabalho, às relações exteriores, fora de casa, como aos que nos perguntam na rua que horas são ou que condução devem tomar para ir a tal bairro, no trânsito... São muitos os que se encontram tristes, fatigados e inquietos e que precisam, antes de mais nada, de ver a alegria que o Senhor nos deixou para se porem também eles a caminho. Quantas pessoas não descobriram o caminho que conduz a Deus através da alegria cristã feita vida num companheiro de trabalho, num amigo!

Esta alegria evangélica é também o estado de ânimo necessário para cumprirmos as nossas obrigações. E quanto mais elevadas forem, tanto mais deverá elevar-se a nossa alegria; quanto maiores forem as nossas responsabilidades (pais, sacerdotes, superiores, professores), tanto maior será também a obrigação de termos essa alegria para comunicá-la. O rosto do Senhor devia resplandecer sempre de alegria, e a sua paz manifestou-se mesmo na sua Paixão e Morte. Também nesses momentos quis dar-nos exemplo, para que o imitássemos se alguma vez o caminho da nossa vida viesse a se tornar íngreme.

«Laetetur cor quaerentium Dominum» – Alegre-se o coração dos que procuram o Senhor.

“– Luz, para que investigues os motivos da tua tristeza” exortava São José Maria Escrivá.

Como é difícil estar triste, mesmo no meio da dor, da pobreza, da doença. Quando de verdade se caminha com o olhar posto no Senhor e se é generoso naquilo que Ele nos pede nas diversas situações, algumas talvez humanamente difíceis! Como São Paulo, poderemos sempre dizer: Estou cheio de consolação, estou inundado de alegria no meio de todas as nossas tribulações. Se na nossa vida realmente procuramos o Senhor, nada poderá tirar-nos a paz e a alegria. A dor purificará a alma e as próprias penas se converterão em gozo.

A alma entristecida cai com facilidade no pecado e fica sem forças para o bem; caminha com certeza para a derrota. Assim como a traça corrói o vestido, e o caruncho a madeira, assim a tristeza prejudica o coração do homem (Prov 25, 20). Se alguma vez sentimos que esta doença da alma nos ronda ou já se introduziu em nós, examinemos onde está colocado o nosso coração.

A tristeza não resulta das dificuldades ou sofrimentos mais ou menos graves, mas de se deixar de olhar para Jesus. São Tomás ensina que este mal da alma é um verdadeiro vício causado pelo desordenado amor de si próprio e é causa de muitos outros males. É como uma planta que, atingida na raiz pela praga, só produz frutos amargos. A tristeza ocasiona muitas faltas de caridade.

O recurso à nossa Mãe Santa Maria – Causa nostrae laetitiae, Causa da nossa alegria – permitir-nos-á encontrar facilmente o caminho da paz e da felicidade verdadeiras, se alguma vez o perdemos. Compreenderemos imediatamente que esse caminho que conduz à alegria é o mesmo que leva a Deus.

“Deus eterno e todo-poderoso, aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade e dai-nos amor o que ordenais para conseguirmos o que prometeis. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo”.

Laus Deo In Aeternum

Walter Silva

Voltar