Lectio Divina 3º Domingo do Tempo do Advento

13/12/2014 18:13

Gaudete in Dómini semper

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito santo. Amém.

“Gaudete in Dómino semper” — escreve são Paulo: “Alegrai-vos sempre no Senhor” (Fl 4, 4).

Nesse Domingo Gaudete - Domingo da alegria -  a repetida recomendação que São Paulo dirige aos primeiros cristãos de Filipos ecoa repetidamente: “Estai sempre alegres no Senhor; de novo vos digo, estai alegres” (Fil 4, 4). E a seguir o Apóstolo enuncia a razão fundamental dessa alegria profunda: “O Senhor está perto”.

No Advento somos constantemente convidados a viver à espera de Jesus com alegria, a não cessar de aguardar a sua vinda, de modo a manter-nos numa atitude de abertura e de disponibilidade ao encontro com Ele. A vigilância do coração, que o cristão é chamado a exercer sempre, na vida de todos os dias, caracteriza em particular este tempo em que nos preparamos com alegria para o mistério do Natal (cf. Prefácio do Advento II).

Alegrai-vos, diz-nos hoje São Paulo. E temos motivos suficientes para isso? Sim, nós temos! Entre tantos um maior, um único motivo, que é razão dos outros: O Senhor está perto. Podemos aproximar-nos d’Ele quantas vezes precisarmos. Dentro de poucos dias, terá chegado o Natal, a nossa festa, a festa da alegria, a festa de todos que sem saber estão à procura de Cristo. Chegará o Natal, e Deus quer ver-nos alegres, como os pastores, como os Magos, como José e Maria.

Bento XVI em uma de suas homilias ressalta que “o verdadeiro júbilo não é fruto do divertir-se, entendido no sentido etimológico da palavra divertere, ou seja, isentar-se dos compromissos da vida e das suas responsabilidades. A verdadeira alegria está ligada a algo de mais profundo. Sem dúvida, nos ritmos diários, muitas vezes frenéticos, é importante encontrar espaços de tempo para o descanso, para a distensão, mas a alegria autêntica está ligada à relação com Deus. Quem encontrou Cristo na própria vida, sente no coração uma serenidade e uma alegria que ninguém e nenhuma situação podem tirar”. Santo Agostinho compreendeu-o muito bem; na sua busca da verdade, da paz, da alegria, depois de ter procurado em vão em múltiplas situações, conclui com a célebre expressão, que o coração do homem está inquieto, não encontra tranquilidade e paz, enquanto não descansar em Deus (cf. Confissões, I, 1, 1).

A verdadeira alegria não é um simples estado de espírito passageiro, nem algo que se alcança com os próprios esforços, mas é um dom, nasce do encontro com a pessoa viva de Jesus, do fazer-lhe espaço em nós, do acolher o Espírito Santo que guia a nossa vida. É o convite que faz o apóstolo Paulo, que diz: “O Deus da paz vos conceda a santidade perfeita. Que todo o vosso ser, espírito, alma e corpo sejam conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Ts 5, 23).

Neste tempo de Advento revigoremos a certeza de que o Senhor veio ao meio de nós e renova continuamente a sua presença de consolação, amor e alegria. Confiemos n’Ele; como ainda afirma santo Agostinho, à luz da sua experiência: o Senhor está mais próximo de nós, do que nós de nós mesmos — “interior intimo meo et superior summo meo” (Confissões, III, 6, 11).

Só estaremos alegres se o Senhor estiver verdadeiramente presente na nossa vida, se não o tivermos perdido, se não tivermos os olhos turvados pela tibieza ou pela falta de generosidade. Quando, para encontrar a felicidade, se experimentam outros caminhos fora daquele que leva a Deus, no fim só se acha infelicidade e tristeza. A experiência de todos os que, de uma forma ou de outra, voltaram o rosto para outro lado (onde Deus não estava), foi sempre à mesma: verificaram que fora de Deus não há alegria verdadeira. Não pode havê-la. Encontrar Cristo, ou tornar a encontrá-lo, é fonte de uma alegria profunda e sempre nova.

A alegria do mundo procede de coisas exteriores: nasce precisamente quando o homem consegue escapar de si próprio, quando olha para fora, quando consegue desviar o olhar do seu mundo interior, que produz solidão porque é olhar para o vazio. O cristão leva a alegria dentro de si, porque encontra a Deus na sua alma em graça. Esta é a fonte da sua alegria. Não nos é difícil imaginar a Virgem Maria, nestes dias do Advento, radiante de alegria com o Filho de Deus no seu seio. A alegria do mundo é pobre e passageira. A alegria do cristão é profunda e capaz de subsistir no meio das dificuldades. É compatível com a dor, com a doença, com o fracasso e as contradições. Eu vos darei uma alegria que ninguém vos poderá tirar (Jo 16, 22), diz o Senhor. Nada e nem ninguém nos arrancará essa paz, se não nos separarmos da sua fonte.

Confiemos o nosso caminho à Virgem Imaculada, causa de nossa alegria, cujo espírito exultou em Deus Salvador. Que ela guie os nossos corações na espera jubilosa da vinda de Jesus, uma expectativa rica de oração e de obras boas.

Laus Deo In Aeternum

Walter Silva

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