Lectio Divina 28°Domingo do Tempo Comum

18/10/2014 09:20

Dia de Nossa Senhora Aparecida – Padroeira do Brasil

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Hoje celebramos a festa de Nossa Senhora Aparecida, a que tantos cristãos recorreram e recorrem para buscar auxílio, a fim de seguirem adiante no caminho da vida, que nem sempre é fácil. Quantos encontram ali a paz da alma, a chamada de Deus a uma maior entrega, a cura, o consolo no meio de uma tribulação! “O que buscavam os antigos romeiros? O que buscam os peregrinos de hoje? Aquilo mesmo que buscavam no dia, mais ou menos remoto, do seu Batismo: a fé e os meios para alimentá-la. Buscam os sacramentos da Igreja, sobretudo a reconciliação com Deus e o alimento eucarístico. E voltam revigorados e agradecidos à Senhora, Mãe de Deus e nossa”

Que alegria a nossa de peregrinos nesta Terra de Santa Cruz, encontrarmos em meio às lutas do dia a dia um tempo para uma visita a uma imagem da Virgem Mãe Aparecida, ou outra de seus vários títulos, buscando por meio da oração confiante inundar nesse nossa alma de paz, tranquilidade e consolo. Pois bem vamos a nossa meditação.

“Sua mãe disse aos que estavam servindo: Fazei o que ele vos disser”. (Jo 2,5)

O Evangelho de hoje nos traz uma cena já bem conhecida. Num dado momento do casamento, veio a faltar vinho. Ninguém o percebe. Ninguém a não ser Maria. Com delicada sensibilidade, pressente que a alegria dos esposos pode ficar triste por causa um descuido. No entanto, Maria faz “seu” o problema, assume-o com sensibilidade materna, com um interesse impregnado de coração. E não hesita em ir falar com confiança a Jesus: “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3).

As suas palavras não são um simples comentário preocupado, mas encerram um discreto pedido. Assim o entende Jesus, quando lhe responde: “Que importa isso a mim e a tí, mulher? Ainda não chegou a minha hora” (Jo 2,4).

A nossa lógica bem comportada aprovaria as palavras de Jesus, como se elas tivessem a aparência de uma compreensível e amável censura a um pedido saído do coração, mas pouco razoável.

Maria, no entanto, não as entende assim. É ela, é quem tem sintonia mais perfeita com a alma de seu Filho, por isso, não duvida em solicitar imediatamente aos que servem: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5). Mostra saber que será escutada, sem que para isso possa se tornar um obstáculo à dificuldade muito forte mencionada por Jesus: “Minha hora ainda não chegou” (Jo 2,4).

O atendimento de Jesus ao pedido da Mãe não demora e, sob o olhar sorridente de Maria, Jesus manda aos servidores que encham de água seis grandes recipientes de pedra. Ordena-lhes depois que tirem a água já convertida em vinho e apesentem ao mestre sala, que não sai do seu assombro por julgar que os donos da festa tinham deixado o melhor vinho guardado até agora. A cena termina com um comentário de João: “Este primeiro milagre, fê-lo Jesus em Caná da Galiléia, e manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram n’Ele” (Jo 2,11).

Pois bem, falávamos a pouco da mensagem encerrada no fato que acabamos de expor, e que aparece aí de maneira muito clara. É patente que Maria está de forma presente no começo do ministério público de Jesus e está presente de uma forma não não marginal. Prestemos atenção:

- É por intercessão dEla que Jesus adianta misteriosamente a “hora” de iniciar os seus milagres que serão “sinais” (Jo 6,26) da sua divindade e testemunhos visíveis da veracidade da sua doutrina.

- É por intercessão dEla que este primeiro sinal faz com que os discípulos creiam em Jesus.

- Finalmente, manifesta-se neste instante a disposição de Jesus de acolher todos os pedidos que mesmo em “coisas pouco relevantes”, como a falta e vinho neste caso, cheguem a Ele por intermédio da solicitude da Mãe, que se mostra amorosamente atenta às nossas necessidades tanto materiais como as espirituais.

“Maria,comenta a propósito desta cena o Papa São João Paulo II, “intervém entre os seu Filhos os homens na realidade das suas privações, das suas indigências, dos seus sofrimentos. Intervém, isto é, faz-se de mediadora não como uma estranha, mas na sua posição e Mãe, conscientes de que como tal pode, ou antes, “tem o direito de” fazer presente ao seu Filho as necessidades dos homens. E não é tudo: como Mãe, deseja também que se manifeste o poder messiânico de seu Filho, ou seja, o seu poder salvífico que se destina a socorrer as desventuras humanas, a libertar o homem do mal que, sob diversas formas e de diversas proporções, faz sentir o peso da sua vida” (Enc. Redemptoris Mater, n.21). Contemplando esta passagem do Evangelho de hoje, a imaginação evoca algumas das cenas mais simples da piedade popular, e que para nós Brasileiros hoje será bem mais forte e grandiosa em aparecida do Norte, local onde reside a Basílica da Mãe Aparecida, e que por vezes escandalizam os sábios. Como num filme, focalizamos mentalmente os rostos cansados, requeimados pelo sol do sertão, ou do interior desse imenso Brasil, de grupos de romeiros que acaba de descer do ônibus entrando pela Basílica, cravam o olhar esperançoso no retrato da Mãe, a pequenina imagem de barro escurecido de Nossa Senhora Aparecida. E, de cada oração, eleva-se uma súplica: seja pelas necessidades cotidianas, seja pela saúde, ou pela volta ao bom caminho do marido, de um filho...”Dai-nos a benção, ó Mãe querida!” Eles sabem por dentro, têm a certeza de que assim como em Caná, a Virgem Maria, não deixará de dizer ao seu Filho: “Eles não têm mais vinho”. E o Filho atenderá, o Filho lhe “obedecerá”...Não é evidente a sintonia que existe entre a devoção da piedade popular quando se vivida de forma correta e o Santo Evangelho?

Maria tem verdadeiramente uma função de mediadora materna entre Deus e os homens. Não é certamente uma função independente, nem obscurece o fato incontestável de que Jesus é o único Mediador propriamente dito entre Deus e os homens (cfr. I Tim 2,5). Mas, mesmo assim, fica em pé “a existência de uma autêntica mediação de Maria, subordinada, mas entranhadamente unida à mediação de Cristo” (Const. Lumem Gentium, n.62).

A Virgem reconforta-nos sempre e está presente quando necessitamos de proteção, pois esta vida é como uma longa navegação em que padecemos ventos e tormentas. Ela é o porto seguro, onde nenhuma nave naufraga. Não deixemos cair na rotina essas pequenas devoções com que nos dirigimos a Ela cada dia: o Angelus, o Santo Rosário, as três Ave-Marias para pedir pela santa pureza de todos, a devoção do escapulário... E quando fizermos alguma romaria, ou formos buscar a sua intercessão em algum santuário dedicada a Ela, acolhamo-nos especialmente à sua misericórdia e amor.

A mediação de Maria está nos desígnios de Deus. Não foi imaginada pela devoção dos cristãos, em épocas mais ou menos tardias. Pelo contrário, foi sendo descoberta pela fé, cada vez com maior profundidade, como um tesouro escondido, o que é muito diferente.

Com esta simplicidade e confiança devemos recorrer a Nossa Senhora em cada uma das suas festas e invocações. Recorremos hoje a Nossa Senhora Aparecida, pedindo-lhe que nos ensine o caminho da esperança.

“Não cesseis, ó Virgem Aparecida, pela vossa mesma presença, de manifestar nesta terra que o Amor é mais forte que a morte, mais poderoso que o pecado! Não cesseis de mostrar-nos Deus, que amou tanto o mundo, a ponto de entregar o seu Filho Unigênito, para que nenhum de nós pereça, mas tenha a vida eterna! Amém!” (São João Paulo II, Dedicação da Basílica nacional de Aparecida, 4-VII-1980).

Laus Deo In Aeternum

Walter Silva

 

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