Lectio Divina 23° Domingo Comum

06/09/2014 18:00

“Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo”. (Romanos,13,8)

Na liturgia deste domingo no evangelho lemos: “Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Se teu irmão chegar a pecar vai e repreende-o, a sós tu e ele”. Se te escutar, terás ganhado um irmão. Jesus fala de todos os tipos de culpa; não restringe ao campo apenas do que se comete contra nós. Neste caso, de fato, é praticamente impossível distinguir se o que nos move é o zelo pela verdade ou nosso amor próprio ferido. Em todo caso, seria mais uma autodefesa que uma correção fraterna. Quando a falta é contra nós, o primeiro dever não é a correção, mas o perdão.

Por que Nosso Senhor Jesus Cristo diz: “repreende-o a sós”. Antes de tudo, por respeito ao bom nome de nosso irmão e à sua dignidade. O pior seria pretender corrigir um homem na presença de outras pessoas, como por exemplo: um pai diante de seus filhos, um professor na presença dos seus alunos, um superior diante dos seus subordinados. Isto é, na presença de pessoas cujo respeito e estima para alguém importa e muito. O caso se converteria imediatamente em um processo público. Nesse caso seria muito difícil que a pessoa aceitaria de bom grado a correção.Por isso é preciso que a verdade venha acompanhada da caridade.

Jesus diz “a sós tu e ele” também para dar à pessoa a possibilidade da defesa e explicar sua própria ação com toda liberdade. Muitas vezes, com efeito, aquilo que para quem está do lado de forao que parece uma culpa, na intenção de quem a cometeu não é. Uma explicação sincera dissipa muitos mal-entendidos. Mas isso deixa de ser possível quando o tema é conhecido por muitos.

Quando por qualquer motivo não é possível corrigir  fraternalmente, a sós, na presença da pessoa que errou, há algo que se deve evitar absolutamente: a divulgação, sem necessidade, da culpa do irmão, falar mal dele ou inclusive caluniá-lo, dando por provado aquilo que não o é ou exagerando a culpa. “Não faleis mal uns dos outros”, diz a Escritura (Tiago 4, 11). A fofoca é um mal grave, e deve ser abolida por nós.

Uma vez uma mulher foi se confessar com São Felipe Néri, acusando-o de ter falado mal de algumas pessoas. O santo a absolveu, mas lhe pôs uma estranha penitência. Disse-lhe que fosse para casa, pegasse uma galinha e voltasse onde ele estava depenando-a pouco a pouco ao longo do caminho. Quando esteve novamente diante dele, ele lhe disse: “Agora volta para casa e recolhe uma por uma das penas que deixaste cair quando vinhas para cá». A mulher lhe mostrou a impossibilidade: o vento as havia dispersado. Aí é onde queria chegar São Felipe. “Vês disse ele, que é impossível recolher as penas uma vez que o vento as levou”? “Da mesma forma é impossível retirar murmurações e calúnias, uma vez que saíram da boca”.

Voltando a nossa meditação sobre a correção, deve-se dizer que nem sempre depende de nós o bom resultado ao fazer uma correção (apesar de nossas melhores disposições, o outro pode não aceitar); porém, depende sempre e exclusivamente de nós o bom resultado ao receber uma correção. De fato, a pessoa que “cometeu a culpa” bem poderei ser eu quem vai corrigir oupode ser outro.

Não existe só a correção ativa, mas também a passiva; não só o dever de corrigir, mas também o dever de deixar-se corrigir. Mais ainda: aqui é onde se vê se alguém está maduro o bastante para corrigir os outros. Quem quer corrigir o outro deve estar disposto também a deixar-se corrigir. Quando vemos alguém receber uma repreensão e responder mesmo contrariado com simplicidade: “Tens razão, obrigado por ter me dito isso”. “Estás diante de um Homem (Mulher) que está buscando cada vez mais ser autêntico”.

O ensinamento de Nosso Senhor Jesus Cristo sobre a correção fraterna deveria ser lido sempre junto ao que Ele disse em outra ocasião: “Como olhas o cisco no olho do teu irmão e não vês a trave que há em teu? Como podes dizer a teu irmão: ‘Irmão, deixa que tire o cisco que há em teu olho’, não vendo tu mesmo a trave que há no teu? (Lc6, 41s.)”.

Devemos evitar que a própria correção se transforme em um ato de acusação ou em uma crítica. Ao corrigir, devemos restringir a reprovação ao erro cometido, não generalizá-la, rejeitando toda a pessoa e sua conduta.O que acontece em muito dos casos que acaba virando coisa pessoal. É preciso aproveitar a correção para colocar em primeiro plano todo o bem que se reconhece na pessoa e o que se espera dela, de maneira que a correção se apresente mais como um estímulo que como um afastamento. Narra-se que era esse o método que São João Bosco usava com seus jovens.

Não é fácil, em casos pessoais, compreender se é melhor corrigir ou deixar passar, falar ou calar. Por isso, é importante levar em conta a regra de ouro, válida para todos os casos, que o Apóstolo dá na segunda leitura: “Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo”. O amor não faz mal ao próximo. Santo Agostinho já dizia“Ama e faze o que queres”. É preciso garantir antes de tudo que exista  no coraçãouma disposição fundamental de acolher a pessoa, depois, o que vai ser decidido fazer, seja corrigir ou calar, porque “o amor jamais causa mal a alguém”.

A vocação nossa de cristãos é amar!

 “Não fecheis o coração, ouvi, hoje, a voz de Deus!” (Salmo 95,8)

 

Por Walter Silva

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