Lectio Divina - 2º Domingo do Tempo da Quaresma 2015

28/02/2015 12:11

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém

"Para trilharmos bem um caminho, é necessário termos um conhecimento prévio do fim.( Santo Tomás de Aquino)

Assim na liturgia de hoje o Evangelho conta-nos o que aconteceu no Monte Tabor, fim do qual tende todo homem: a glória do Céu. Mas, pouco antes, Jesus havia declarado aos seus discípulos, em Cesaréia de Filipe, que iria sofrer e padecer em Jerusalém, e que morreria às mãos dos príncipes dos sacerdotes, dos anciãos e dos escribas. Os Apóstolos tinham ficado aflitos e tristes com a notícia. Agora Jesus toma consigo Pedro, Tiago e João, e leva-os a um lugar à parte para orar. São os três discípulos que serão testemunhas da sua agonia no Horto das Oliveiras.

São Leão Magno diz que “o fim principal da transfiguração foi desterrar das almas dos discípulos o escândalo da Cruz”

E é neste mistério de luz que hoje a liturgia nos convida a fixar o nosso olhar. No rosto transfigurado de Jesus brilha um raio da luz divina que Ele conservava no seu íntimo. Esta mesma luz resplandecerá no rosto de Cristo no dia da Ressurreição. Neste sentido, a Transfiguração manifesta-se como uma antecipação do mistério pascal.

Qual o significado disto? A Transfiguração é uma revelação da pessoa de Jesus, de sua essência profunda. De fato, os três discípulos testemunharam isso, foram envolvidos por uma nuvem, também esta luminosa – que na Bíblia anuncia sempre a presença de Deus – e ouviram uma voz que dizia:

“Este é meu Filho muito amado: nele coloco a minha afeição. Escutem-no" (Mt 17,5). Com este evento, os discípulos foram preparados para o mistério pascal de Jesus: a superar a terrível prova da paixão e também para compreender bem o fato luminoso da ressurreição.

A narração fala também de Moisés e Elias, que apareceram e conversaram com Jesus. Efetivamente, este episódio tem uma relação com outras duas revelações divinas. Moisés subiu sobre o monte Sinai e ali teve a revelação de Deus. Pediu para ver a sua glória, mas Deus o respondeu que não o poderia vê-lo de frente, mas somente pelas costas (cf. Ex 33,18-23). Em modo análogo, também Elias teve uma revelação de Deus sobre o monte: uma manifestação mais íntima, não através de uma tempestade, de um terremoto ou pelo fogo, mas por uma brisa leve (cf. 1 Rs 19,11-13). A diferença em relação a estes dois episódios é que na Transfiguração não é Jesus a ter a revelação de Deus, mas sim é n’Ele mesmo que Deus se revela e que revela a sua face aos apóstolos. Portanto, quem quer conhecer a Deus, deve contemplar a face de Jesus, a sua face transfigurada: Jesus é a perfeita revelação da santidade e da misericórdia do Pai.

Além disso, recordemos que sobre o monte Sinai, Moisés teve também a revelação da vontade de Deus: os Dez Mandamentos. E, sempre sobre o monte, Elias recebe de Deus a revelação da missão a cumprir. Jesus, ao invés disso, não recebe aquilo que deverá cumprir: já o conhece, na verdade são os apóstolos a ouvir, nas nuvens, a voz de Deus que manda: “Escutem-no”. A vontade de Deus se revela plenamente na pessoa de Jesus. Quem quer viver segundo a vontade de Deus, deve seguir Jesus, escutá-lo, acolher dele as palavras e, com a ajuda do Espírito Santo, também aprofundá-las. É este é o chamado que devemos desejar realizar nesta quaresma com grande alegria: crescer no conhecimento e no amor a Jesus, de modo particular encontrá-lo na Eucaristia, na escuta da sua Palavra, na oração, na caridade.

São Beda comentando essa passagem diz que o Senhor, “numa piedosa autorização, permitiu que Pedro, Tiago e João fruíssem durante um tempo muito curto da contemplação da felicidade que dura para sempre, a fim de fortalecê-los perante a adversidade”. A lembrança desses momentos ao lado do Senhor no Tabor foi sem dúvida uma grande ajuda nas várias situações difíceis por que estes três Apóstolos viriam a passar.

A vida dos homens é uma caminhada para o Céu, que é a nossa morada. Uma caminhada que, às vezes, se torna áspera e difícil, porque com frequência devemos remar contra a corrente e lutar com muitos inimigos interiores ou de fora. Mas o Senhor quer confortar-nos com a esperança do Céu, de modo especial nos momentos mais duros ou quando se torna mais patente a fraqueza da nossa condição: “À hora da tentação, pensa no Amor que te espera no Céu. Fomenta a virtude da esperança, que não é falta de generosidade” (Josemaría Escrivá, Caminho, n. 139).

O pensamento da glória que nos espera deve espicaçar-nos na nossa luta diária. Nada vale tanto como ganhar o Céu.   A grande Doutora da Igreja e mestra da oração Santa Teresa D’Ávila dizia que “se formos sempre avante com esta determinação de antes morrer do que desistir de chegar ao termo da jornada, o Senhor, mesmo nos manterá com alguma sede nesta vida, na outra, que durará para sempre, Ele vos dará de beber com toda a abundância e sem perigo de que vos venha a faltar” (Santa Teresa, Caminho de perfeição, 20, 2).

A transfiguração de Jesus é uma catequese que revela aos discípulos e a nós Quem é verdadeiramente Jesus: O Filho muito amado de Deus Pai!

Precisamos desejar encontrar a Jesus transfigurado na nossa vida diária, no meio do trabalho, na rua, nos pobres, nos doentes, nos que nos rodeiam, na oração, quando nos perdoa no Sacramento da Penitência (Confissão), e, sobretudo na adoração do Santíssimo Sacramento, onde se encontra verdadeira, real e substancialmente presente. Devemos aprender a descobri-lo nas coisas ordinárias, correntes, fugindo da tentação de desejar o extraordinário.

O cristão Católico que segue a Cristo deve descer do monte para enfrentar o mundo e os problemas dos homens e não querer ficar de braços cruzados querendo somente a glória de Cristo! A glória de Nosso Senhor é a sua Cruz, ali está à verdadeira transfiguração!

Coragem irmãos...

Confiamos à Virgem Maria o nosso caminho quaresmal, ela que seguiu o seu Filho Jesus até a Cruz, nos ajude-nos a sermos discípulos fiéis a Cristo, não só na glória do Tabor, mas e principalmente na glória da Cruz.

Laus Deo In Aeternum

Walter Silva

 

 

 

 

 

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