Lectio Divina – 6 º Domingo do Tempo Comum

17/02/2015 22:03

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

“Ele tomou sobre si nossas dores” (Is 53, 4). É este o “admirável comércio” pelo qual nós fomos salvos. Ao tocar o leproso com a sua graça, Jesus inverte os papeis. No final do evangelho, é Nosso Senhor, e não mais o leproso, quem não pode entrar na cidade.

Jesus, que será crucificado fora dos muros da Cidade Santa, toma o lugar dos excomungados e pecadores para trazê-los de volta à comunhão com Deus. Embora impuros, aproximemo-nos de Deus com a mesma confiança do leproso e pronunciemos nossa oração confiante: “se queres, podes me purificar!”.

Vamos ao texto:

Um leproso chegou perto de Jesus, e de joelhos pediu: “Se quiseres tens o poder de curar-me”. (Mc 1, 40)

A cura do leprosonarrada pelo Evangelho da Missa deve ter comovido e muito as multidões, também pudera, depois dele ter passado por cima das rigorosas prescrições já descritas desde o antigo testamento e que o proibia aproximar-se dos que estavam limpos.

A Lei de Moisés prescrevia o seguinte: “O leproso deve ficar isolado e morar fora do acampamento” (Lv 13, 46). Um preceito duro que só se explica pela preocupação de evitar o contágio e pela idéia corrente entre os hebreus de que era um castigo de Deus aos pecadores. Consequentemente, o leproso era um foragido da comunidade e tido como “impuro”, ferido e amaldiçoado por Deus.

É impressionante a cena: um leproso, contrariando a Lei, aproxima-se de Jesus… e de joelhos implora: “Se queres, tens o pode de curar-me”…

Jesus “se compadece”, estende a mão e toca-o… e restitui-lhe a saúde: “Eu quero, fica curado…”.

Que fé maravilhosa! Aquele homem, abandonado pelos homens e tido como rejeitado por Deus, tem mais fé do que muitos seguidores de Cristo. A fé autêntica não se perde em raciocínios sutis; tem uma lógica muito simples: Deus pode fazer tudo; basta, pois, que o queira fazer. Ao pedido, que manifesta uma confiança ilimitada, Jesus responde com um gesto inaudito para um povo, a quem fora proibido qualquer contato com os leprosos: “estendeu a mão, tocou-o”. Deus é o Senhor da Lei e, por isso, pode infringi-la.

A cena do leproso que vai ao encontro de Jesus é tão marcante que a encontramos narrada em três Evangelistas que contam o episódio e transmitem-nos o gesto surpreendente do Senhor: “Estendeu a mão e o tocou”. Até àquele momento, todos os homens haviam fugido dele com medo e repugnância. Cristo, porém, que podia tê-lo curado à distância – como já o fizera em outras ocasiões -, não só não se afasta dele, como chega a tocar a sua lepra. Não é difícil imaginar a ternura de Cristo e a gratidão do doente quando viu o gesto do Senhor e ouviu as suas palavras: “Quero, sê limpo.”

O Senhor sempre deseja curar-nos das nossas fraquezas e dos nossos pecados. E não temos necessidade de esperar meses nem mesmo dias para que passe perto da nossa cidade… No Sacrário mais próximo, na intimidade da alma em graça, no Sacramento da Penitência (Confissão), encontramos o mesmo Jesus de Nazaré que curou o leproso. Ele “é Médico, e cura o nosso egoísmo se deixarmos que a sua graça nos penetre até o fundo da alma. Jesus advertiu-nos que a pior doença é a hipocrisia, o orgulho que leva a dissimular os pecados próprios. Com o Médico, é imprescindível que tenhamos uma sinceridade absoluta, que lhe expliquemos toda a verdade e digamos: Senhor, se quiseres, – e Tu queres sempre -, podes curar-me. Tu conheces a minha debilidade; sinto estes sintomas e experimento estas outras fraquezas. E descobrimos com simplicidade as chagas; e o pus, se houver pus; todas as misérias da nossa vida” (São JosemaríaEscrivá, É Cristo que Passa, nº 93).

Os Santos Padres viram na lepra a imagem do pecado.Porém, o pecado é incomparavelmente pior do que a lepra. Dizia o Cura d’Ars: “Se tivéssemos fé e víssemos uma alma em estado de pecado mortal, morreríamos de terror”.

No entanto, uma realidade não pode ser esquecida por nos: Jesus é o único que nos pode curar. Só Ele!

O que Ele nos diz é que veio perdoar, redimir, veio livrar-nos dessa lepra da alma que é o pecado. E anuncia o seu perdão como um sinal de onipotência, como sinal de um poder que só o próprio Deus pode exercer.

Cada uma das nossas confissões é expressão do poder e da misericórdia de Deus. É o próprio Jesus quem, no Sacramento da Penitência, pronuncia a palavra autorizada e paterna: “Os teus pecados te são perdoados”.

Temos que aprender uma lição dada pelo leproso: Ele com toda a sua sinceridade, coloca-se diante do Senhor e, de joelhos, reconhece a sua doença e pede para ser curado.

Esta deve ser a nossa atitude no que diz respeito ao Sacramento da Confissão. Pois nela também nós ficamos livres das nossas enfermidades, por maiores que possam ser. E não só ficamos limpos do pecado, como adquirimos uma nova juventude, uma renovação da vida de Cristo em nós. Ficamos unidos ao Senhor de uma maneira diferente e particular!

Com certeza aquele dia foi inesquecível para o leproso. Cada um dos nossos encontros com Cristo é também inesquecível.

Que nossa Mãe Santa Maria nos conceda, se recorrermos a Ela, a alegria deste grande bem deixado pelo Senhor – Deus de misericórdia – que é o sacramento da Confissão, que purifica nossa alma de toda a lepra do pecado.

Laus Deo In Aeternum

Walter Silva

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