DOUTORES DA IGREJA QUEM E O QUE SÃO?

15/09/2013 15:11

Em síntese: Doutor da Igreja é aquele cristão ou aquela cristã que se distinguiu por notório saber teológico em qualquer época da história. O conceito de Doutor da Igreja difere do de Padre da Igreja, pois Padre da Igreja é somente aquele que contribuiu para a reta formulação dos artigos da fé até o século VII no Ocidente e até o século VIII no Oriente. Há  Padres da Igreja que são Doutores. Assim os quatro maiores Padres latinos (S. Ambrósio, S. Agostinho, S. Jerônimo e S. Gregório Magno) e os quatro maiores Padres gregos (S. Atanásio, S. Basílio, S. Gregório de Nazianzo e S. João Crisóstomo).

A inscrição de Sta. Teresinha de Lisieux entre os Doutores da Igreja despertou a atenção do público para o conceito de tal título. Que significa ser “Doutor(a) da Igreja”? – Eis o que as paginas subsequentes procurarão dizer.

1. Doutores da Igreja: quem são?

Os Doutores da Igreja são homens e mulheres ilustres que, pela sua santidade, pela ortodoxia de sua fé, e principalmente pelo eminente saber teológico, atestado por escritos vários, foram honrados com tal título por desígnio da Igreja.

Os Doutores se assemelham aos Padres da Igreja, dos quais também diferem como se vera a seguir.

Padres da Igreja são aqueles cristãos (Bispos, presbíteros, diáconos ou leigos) que contribuíram eficazmente para a reta formulação das verdades da fé (SS. Trindade, Encarnação do Verbo, Igreja, Sacramentos...) nos tempos dos grandes debates e heresias. O seu período se encerra em 604 (com a morte de S. Gregório Magno) no Ocidente e em 749 (com a morte de S. João Damasceno) no Oriente.

Para que alguém seja considerado Padre da Igreja, requer-se antiguidade (até os séculos VII/VIII), ao passo que isto não ocorre com um  Doutor.

Para os Padres da Igreja, basta o reconhecimento concreto, não explicitado, da Igreja, ao passo que para os Doutores se requer uma proclamação explicita feita por um Papa ou por um Concílio.

Para os Padres, não se requer um saber extraordinário, ao passo que para um Doutor se exige um saber de grande vulto.

Por conseguinte, o que caracteriza um Padre da Igreja é principalmente a sua antiguidade; ao contrário, o Doutor se identifica precipuamente pelo seu saber notório. Isto, porém, não impede que haja Padres da Igreja que também são Doutores, como se verifica, por exemplo, no caso dos maiores Padres do Ocidente (S. Ambrósio, S. Agostinho, S. Jerônimo, S. Gregório Magno) e no dos quatro maiores Padres do Oriente (S. Atanásio, S. Basílio, S. Gregório de Nazianzo e S. João Crisóstomo). São os oito grandes Doutores da Igreja.

Esta terminologia, precisa como é, não era usual na antiguidade, pois a palavra doutor tinha o sentido de docente, mestre, de modo que eram doutores antigamente aqueles que conheciam bem os artigos da fé e os sabiam explanar com clareza. São Paulo parece aludir a este sentido amplo de mestre, quando diz que o Senhor “constituiu apóstolos, profetas, evangelistas, pastores em sua Igreja” (cf. Ef 4,11; ver 2Cor 12,28; At 13,1).

Com o tempo, o titulo de Doutor foi-se tornando mais especifico; a princípio era atribuído somente a Padres da Igreja, isto é, aqueles Padres que sobressaíram por seu brilho doutrinário.

Interessante é notar que nenhum mártir foi proclamado doutor da Igreja (tal poderia ter sido o caso de S. Cipriano de Cartago, vigoroso defensor da unidade da Igreja), e não o foi porque o martírio é considerado o maior título de glória, que não necessita de algum complemento para enaltecer a figura do cristão. No século XVI a Igreja abriu mão da nota da antiguidade e passou a designar como Doutores figuras de épocas mais recentes. A primeira proclamação neste sentido foi feita pelo Papa S. Pio V, aos 11/4/1567, em favor de S. Tomas de Aquino (+ 1274). Outras proclamações ocorreram posteriormente, como se depreende da lista publicada a seguir.

Além dos Doutores reconhecidos na Igreja inteira, há os que possuem tal título apenas em determinado país ou ambiente. Tal é o caso de S. Leandro de Sevilha (+ 604), doutor na Espanha, e S. Próspero da Aquitânia (+ após 455), Doutor entre os Cônegos Regulares do Latrão.

2. Os Doutores da Igreja

Hilano de Poitiers – Bispo – 367 - França – A Trindade Comentário aos Salmos Comentário a S. Mateus

Atanásio - Bispo – 373 - Egito – A Encarnação do Verbo Apologia contra os Arianos

Efrém - Diácono – 378 -  Síria – Comentários a Bíblia Poemas de Nísibe.

Basílio – Bispo – 379 - Turquia – Tratado do Espírito Santo

Cirílio – Bispo – 386 - Palestina – Catequeses Jerusalém

Gregório Nazianzeno – Bispo – 390 - Turquia – Homilias. Cartas.Versos.

Ambrósio – Bispo – 397 – Itália - Comentário do Evangelho  e Lucas Tratado da Virgindade.

João Crisóstomo – Bispo – 407 - Turquia - Sacerdócio. Homilias. Cartas.

Jerônimo – Monge – 419 – lugoslávia - Vulgata (Tradução Latina da Bíblia)

Agostinho – Bispo – 430 – Argélia -  Confissões. Cidade de Deus. A Trindade. Cartas.

Cirilo de Alexandria – Bispo – 444 – Egito - Comentário de S. João. Contra Nestório.

Pedro Crisólogo -, Bispo – 450 - Itália – Homilias.

Leão Magno – Papa -  461 - Itália – Homilias. Cartas.

Gregório Magno – Papa – 604 – Itália - Moral. Diálogos.

Isidoro de Sevila – Bispo – 636 - Espanha – Etimologias

Beda Venerável - O Monge – 735 - Inglaterra – História Eclesiástica dos Anglos.

João Damasceno – Monge – 749 – Síria - Contra os Iconoclastas.

Pedro Damião – Cardea -l 1072 – Itália - O Livro de Sodoma. Vida de S. Romualdo. Sermões.

Anselmo – Bispo – 1109 -  Inglaterra - Monologion. Proslogion. A Verdade. Cartas.

Bernardo -  Abade – 1153 – França - A Graça. Para Eugênio III Sermões sobre o Cântico dos Cânticos.

Antônio de Pádua – Frade – 1231 - Portugal. Sermões

Tomás de Aquino – Frade – 1274 - Itália - Suma Teológica Contra Gentiles Com. de Pedro Lombardo.

Boaventura – Cardeal – 1274 – Itália -  Apologia dos pobres. Itinerário do Espírito a Deus.

Alberto Magno – Bispo – 1280 – Alemanha - 38 volumes sobre ciência, teologia, filosofia, Bíblia.

Catarina de Sena – Religiosa (Ordem Terceira) – 1380 - Itália. Diálogo. Cartas.

Teresa de Ávila – Monja – 1582 – Espanha - Autobiografia. Caminho Da Perfeição. Castelo Interior ou As Moradas

João da Cruz – Frade – 1591 – Espanha - Cântico Espiritual Subida da Carmelo Noite Obscura.

Pedro Canísio – Padre – 1597 – Alemanha - Catecismo.

Lourenço de Brindisi – Frade -  1619 -  Itália - Comentário do Gênesis. Sermões.

Roberto Belarmino – Cardeal – 1621 – Itália - Controvérsias.

Francisco De Sales – Bispo – 1622 – França - Introdução à vida devota. Tratado do amor de Deus

Afonso de Ligório – Bispo – 1787 – Itália - Teologia Moral, Glórias de Maria, Prática de amar a Jesus Cristo. A oração.

 Teresinha de Jesus – Monja – 1897 – França - Autobiografia. (Lisieux)

Alguns Doutores receberam um aposto que caracteriza sua personalidade. Assim:

S. Anselmo de Cantuária, Doutor Mariano (devoto de Maria SS.)

S. Bernardo de Claraval, Doutor Melífluo (dotado de palavra doce como o mel)

S. Antônio de Pádua, Doutor Evangélico (exímio pregador do Evangelho)

S. Tomás de Aquino, Doutor Angélico.

S. Boaventura, Doutor Seráfico.

S. Alberto Magno, Doutor Universal (grande erudito também nas ciências naturais de sua época)

S. Afonso Maria de Ligório, Doutor Zelosíssimo (sábio moralista)

Santa Teresinha se distinguiu no campo da Espiritualidade ou da Ascética e Mística. Desenvolveu as palavras do Senhor Jesus que convidam os fiéis a se tornar crianças espiritualmente (cf. Mt 18,3s) vivendo como filhos bem-amados na presença de Deus. A monja carmelita deduziu profundas conclusões dos dizeres do Senhor, que ela explanou com simplicidade na sua autobiografia intitulada “História de uma Alma” e em escritos paralelos, inclusive poesias. Essas obras fizeram enorme bem à Igreja, o que justifica plenamente o título de Doutora que lhe foi conferido pelo Papa João Paulo II aos 19/10/97.

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb Nº 429 – Ano : 1998 – p. 87

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