Igreja Una Santa Católica e Apostólica


A Seita Presbiteriana - Calvinista

08/10/2014 07:24

Os Presbiterianos constituem uma denominação evangélica ou protestante que se organizou em torno do regime dos «presbíteros».

Percorreremos abaixo as origens e as principais doutrinas do Presbiterianismo.

 

1. Surto e desenvolvimento

 

O Presbiterianismo deve sua origem remota a João Calvino (+1564), o «Reformador» cristão que fez de Genebra (Suíça) a sua sede principal.

 

Embora Lutero na Alemanha, Zwingli em Zürich (Suíça) e Calvino em Genebra tenham procurado simultaneamente remodelar o Cristianismo, partindo de princípios comuns, cada um desses Reformadores deu modalidades próprias ao movimento que encabeçou. Lutero representa, antes do mais, uma alma profundamente religiosa, mas orientada pelo sentimento e a paixão mais do que pelo raciocínio; estava, portanto, assaz sujeito às incoerências e aos desatinos. Calvino, ao contrário, deixou que sua ardente religiosidade fosse guiada friamente pela razão e a lógica; criou, por conseguinte, um tipo de religião rígida, em que os sentimentos da alma são inteiramente subordinados à exaltação da glória e da onipotência de Deus; com seriedade trágica, Calvino, desejoso de salvar as almas, considerava sempre as exigências impreteríveis de sua vocação e a imperiosidade do dever. Com estes predicados exerceu extraordinário poder de atração sobre os homens seus contemporâneos, os quais de longe acorriam a Genebra para ver e ouvir o «Reformador».

 

Traço muito característico da figura severa de Calvino e da mentalidade que ela até hoje exala, é o seguinte: conforme disposição testamentária do Reformador, seu cadáver envolvido em pano grosso foi por notável multidão de crentes levado ao cemitério de Plainpalais, sem discursos nem cantos; sobre o seu túmulo não se ergueu nem uma cruz nem uma pedra sequer, de tal sorte que hoje não se pode indicar com segurança onde jazem os despojos mortais de Calvino; em 1830 um calvinista holandês colocou no mencionado cemitério uma lápide, até hoje existente, com as iniciais J. C. (João Calvino); o lugar conjeturado, porém, está sujeito a dúvidas.

 

A austera atitude religiosa que Calvino inaugurou, é hoje a herança de cerca de 60 milhões de cristãos, dos quais 40 milhões têm o titulo de Reformados (seriam os imediatos discípulos de Calvino na Suíça e na França; não há quem se denomine simplesmente calvinista); 15 milhões são chamados Presbiterianos (calvinistas doutrinados por John Knox, na Escócia); os restantes 5/6 milhões têm o nome de Congregacionalistas (oriundos na Inglaterra por obra de Robert Browne, +1624, contra certo desvirtuamento do Presbiterianismo).

 

Voltemo-nos agora diretamente para o tema da nossa questão.

 

Ao organizarem as suas respectivas Igrejas, nem Lutero na Alemanha nem Zwingli em Zürich atribuíram papel relevante aos simples fiéis no governo das comunidades luteranas e zwinglianas; ambos criaram Igrejas de Estado, administradas pelo poder civil; dada a impetuosidade de seu temperamento apaixonado, Lutero teria mesmo levado seus discípulos a situações anárquicas ou à subordinação aos príncipes alemães. Calvino evitou este escolho; rígido e metódico como era, deu à sua Igreja a organização mais compacta possível, removendo a ingerência do poder civil, ao qual o Legislador de Genebra devotava muito pouca confiança. Asseverava que somente Jesus Cristo possui soberania na Igreja, entendendo por soberania o poder legislativo; quanto ao poder coercitivo, Calvino o entregou a um conselho, dito «a Boa Companhia» ou «o Consistório» ou «o Conselho Presbiteriano». Este devia constar de pastores (isto é, ministros que dirigem uma comunidade de fiéis), doutores (ministros que ensinam em altas escolas) e presbíteros ou anciãos (meros administradores, e não ministros do culto ou da palavra). Os presbíteros deviam exercer influência preponderante nesse conselho, a ponto de dar-lhe o nome característico de «presbitério» ; Calvino julgava que a função dos mesmos correspondia à dos «anciãos» ou «presbíteros» de que fala a S. Escritura (cf. At 20,17). Note-se, por conseguinte, que a palavra «Presbiterianismo» significa não o regime em que o sacerdote (presbítero, no sentido católico) ou pastor (ministro da palavra e do culto, no sentido luterano) é chefe, com exclusão de bispos, mas designa o sistema em que cada comunidade de fiéis é governada por uma comissão de anciãos eleitos pelos mesmos fiéis (na organização hodierna, os presbitérios calvinistas estão, por sua vez, subordinados a sínodos e a concílios).

 

A denominação «Presbiterianismo» assim entendida, embora se possa aplicar a qualquer fundação calvinista, é reservada para designar as igrejas calvinistas de língua inglesa (na Escócia, na Inglaterra, na Irlanda, nos EE.UU. da América, nas colônias inglesas e nas demais nações para onde núcleos de língua inglesa emigraram). O Presbiterianismo nesses mesmos países opõe-se ao Episcopalismo (sistema que, embora seja protestante quanto à doutrina, conserva a hierarquia dos bispos) e ao Congregacionalismo ou Independentismo (sistema que atribui a cada comunidade ou congregação de «santos» absoluta autonomia em relação às demais e ao Estado, ficando supressa toda hierarquia de poderes).

 

Importa agora considerar como o Presbiterianismo se difundiu.


Faz-se mister, nos transportemos para a Escócia. Lá a Reforma protestante começou a penetrar em meados do séc. XVI sob a modalidade luterana. John Knox (1505-1572) era um sacerdote escocês que, três anos depois de ordenado, aderia às novas idéias; por influência das obras de Lutero e principalmente pela leitura, mal interpretada, dos escritos de S. Agostinho, abandonara a fé católica; o luterano Wishart, que então pregava na Escócia, acabou de conquistá-lo para a heresia. Tendo-se envolvido no morticínio do Cardeal Beaton, passou 19 anos cumprindo penas numa galera francesa. Após algumas peripécias devidas ao seu caráter turbulento, Knox foi ter a Genebra onde sorveu os princípios doutrinários e as normas da organização eclesiástica de Calvino; de Genebra escrevia numerosas cartas aos nobres da Escócia, propondo-lhes as vantagens que lhes adviriam se se apoderassem dos bens do clero; os «Lords» protestantes escoceses constituíram então a «Congregação de Cristo», a fim de abater a «Congregação de Satanás e da idolatria»... A nova sociedade mandou um emissário a Genebra, que persuadiu Knox de assumir a sua direção — coisa que o doutrinador aceitou, desembarcando na Escócia aos 2 de maio de 1559. De regresso à pátria, Knox sem demora pôs seu temperamento inflexível a serviço da causa calvinista; demagogo decidido, ele aparecia em público qual profeta, com sua barba, suas maçãs de rosto salientes, seu olhar duro e frio (tem sido comparado ao famoso Moisés de Miguelangelo). A sua pregação violenta encontrou repercussão: conventos foram saqueados, estátuas quebradas, alfaias do altar profanadas. Em julho de 1560, por efeito de guerras civis, o governo da Escócia caiu em mãos dos protestantes escoceses. Em consequência, o Parlamento de Edimburgo neste mesmo ano aboliu o culto católico e introduziu o CALVINISMO como religião do Estado: esta seria norteada pela «Scotica Confessio» ou profissão de fé devida a Knox e pelo «First Book of Discipline», no qual o mesmo autor dava organização calvinista ou presbiteriana à Cristandade de sua nação. Os católicos, tidos por Knox como «adoradores de Moloque ou idólatras», sofreram então violenta perseguição; o «Reformador» reivindicava para os pregadores do seu credo calvinista os privilégios dos Apóstolos, isto é, autoridade incontestada; tais homens utilizaram o método dos «filhos do trovão», pois Knox julgava encontrar na Escritura o preceito de exterminar os católicos, que ele equiparava aos pagãos; reconhecia à comunidade dos crentes e, em nome desta, até aos indivíduos particulares o direito de recorrer ao punhal contra a legítima autoridade civil.

 

O Presbiterianismo teve que lutar contra as tentativas dos reis da Inglaterra Jaime I (1603-25), Carlos I (1625-49), Carlos II (1660-85) e Jaime II (1685-88), os quais procuravam introduzir na Escócia o Episcopalismo inglês. Os presbiterianos, porém, conseguiram não somente resistir aos episcopais, mas até mesmo implantar as suas idéias na Inglaterra; com efeito, a famosa assembleia do Parlamento inglês em Westminster, no ano de 1643, instituiu, ao menos provisoriamente, o regime presbiteriano na Inglaterra; este contudo não conseguiu prevalecer sobre o Episcopalismo, que em breve foi oficialmente restaurado no reino inglês.

 

Na Escócia o Presbiterianismo triunfou definitivamente sob o reinado de Guilherme III de Orange (1689-1702). Aconteceu, porém, que a união da Escócia com a Inglaterra (vigente desde 1707) atenuou o sistema presbiteriano, pois o governo foi mais e mais arrogando a si o direito de nomear os ministros do culto. Isto provocou a formação de comunidades dissidentes, que em 1847 se uniram sob o nome de «United Presbyterian Church». Pouco antes, em 1833, o Parlamento recusara às famílias presbiterianas o direito de anular a nomeação de um ministro do culto feita pelo «patrono» ou senhor tutelar de determinada igreja; esta medida provocou em 1843 novo cisma, dando origem à «Free Church» ou «Igreja Livre». Finalmente em 1874 o Parlamento concedeu a cada paróquia o direito de nomear o seu pastor, conforme a constituição presbiteriana. Os dissidentes da «United Presbyterian Church» e da «Free Church» resolveram em 1900 fundir-se em um só bloco designado como «United Free Church», ao lado do qual subsiste hoje em dia a Igreja do Estado («Established Church of Scotland»); existem outrossim os dois pequenos grupos independentes, ditos «Reformed Presbyterian Church» e «United Original Seceders».

 

Nos EE. UU. da América, o Presbiterianismo foi introduzido desde o séc. XVI por imigrantes ingleses, franceses, holandeses e alemães, o que provocou agrupamentos divergentes entre si no tocante a certos pontos de doutrina ou de disciplina (relações da Igreja com o Estado, permissão de órgão e cantos populares no culto, etc.); o bloco mais numeroso é a «Presbyterian Church in the United States of America»; contam-se outrossim a «United Presbyterian Church in the United States», a «Reformed Presbyterian Church of America», a «Associate Reformed Church of lhe South», a «Reformed Presbyterian Church of Pittsburg and Ontario» e a «Colowred Church of the United States and Canada» (destinada aos fiéis de raça negra).

 

Em 1877 por iniciativa do Professor James Mc Cosh, foi fundada em Edimburgo a «Aliança Pan-presbiteriana», a qual, sem acarretar superioridade de um agrupamento sobre os demais, coordena entre si os presbiterianos da Escócia, da Inglaterra, da Irlanda, da Espanha, da França, da Holanda, da Bélgica, da Suíça, da Boêmia, da Morávia, da Hungria, da África, da índia, da Austrália, da Nova Zelândia e de Formosa. A base da união não é a igualdade de doutrinas (as divergências teológicas subsistem entre as diversas denominações agrupadas), mas apenas a constituição presbiteriana dos variados grupos (constituição segundo a qual os leigos são eleitos para governar as igrejas).

Analisemos agora sumàriamente.

 

2. Os principais traços da mentalidade presbiteriana

 

Knox tinha temperamento assaz afim ao de Calvino: ambos tendiam à severidade extrema em vista da causa do reino de Deus por eles idealizado. Essa índole ardente era particularmente excitada em Knox pela consciência que este Reformador dizia possuir, de ser profeta chamado por Deus, ou de ser um novo Elias, destinado a lutar contra nova Jesabel (a rainha Maria Stuart, 1542-1568). Além disto, julga-se que Knox tinha o gênio de legislador e organizador ainda mais apurado que o de Calvino.

 

A ideologia de Knox, por conseguinte, reitera as teses tradicionais do CALVINISMO, levando-as, porém, até as últimas consequências, a ponto de já se ter dito que ela associa a rudez natural da Escócia com o rigor do CALVINISMO. — O traço dominante dessa teologia é a ideia da grandeza ou da honra de Deus. A fim de sublinhar ao extremo a soberania divina, Knox, com Calvino, admitia que Deus, por um ato positivo, predestina todos os homens, uns para a glória celeste, outros para a condenação eterna. A natureza humana nada em absoluto pode fazer para se salvar, já que foi totalmente corrompida pelo pecado original.

 

É o que Calvino ensinava nestes termos:

«Somos produtos de semente imunda, nascemos contaminados pela infecção do pecado». «O homem é um macaco, uma besta indômita e feroz, um lixo»; tende «necessàriamente ao mal» e «o que há de mais nobre e aproveitável em nossas almas... está totalmente corrompido, por muito digno que pareça».

 

Knox portanto, seguindo Calvino, negava que o livre arbítrio seja a causa das boas obras, afirmando, ao contrário, «ser o espírito do Senhor Jesus, o qual permanece em nossos corações pela verdadeira fé, que as produz» (Knox). Doutro lado, é Deus mesmo quem «constrange os réprobos a fazer o mal que Ele quer» (Calvino). Caso alguém replicasse ao Reformador de Genebra : «Não compreendo isso», o mestre responderia : «ó besta, quem és tu ? Ainda que todos os maiores doutores do mundo o quisessem entender, não o alcançariam». Em última análise, para o CALVINISMO, atribuir ao homem alguma capacidade de colaborar na sua salvação ou reconhecer ao cristão algum mérito (ainda que subordinado ao Redentor) seria «obscurecer a glória de Deus e erguer-se contra Ele» (Calvino). Insistindo em exaltar o poder do Altíssimo, o Reformador quase se comprazia em espezinhar a natureza humana; Deus é tudo, o homem nada é; este princípio no CALVINISMO e, por conseguinte, no Presbiterianismo, devia ser professado até as últimas consequências...

 

A Igreja, neste contexto, é considerada como sociedade invisível, conhecida por Deus só e constituída apenas pelos predestinados. A única regra de fé vem a ser a Sagrada Escritura, cuja autoridade é tida como superior à da Igreja. Só se reconhecem dois sacramentos: o batismo e a santa ceia; esta não confere o corpo e o sangue do Senhor presentes como tais sob os sinais sacramentais, mas apenas uma participação espiritual no corpo e no sangue de Cristo.

 

As proposições teológicas do Presbiterianismo foram recolhidas na Confissão de Westminster (1645-1646). Hoje em dia, porém, pode-se dizer que há três tipos de credo presbiteriano: 1) o das Igrejas que professam a fórmula de Westminster, admitindo, porém, certa elasticidade principalmente no tocante à doutrina da predestinação; 2) o das Igrejas que se recusam a subscrever a Confissão de Westminster; são os «non-subscribing Presbyterians» da Inglaterra e da Irlanda; 3) o dos que se mostram ainda mais largos, muito imbuídos de racionalismo, mormente nos conceitos da SSma. Trindade e da Encarnação.

 

Embora se diferenciem na fé, as Igrejas dependentes de Calvino se revelam aparentadas entre si na Moral e na celebração do culto.

A mentalidade puritana rigorista marca a conduta do Presbiteriano, incutindo um zelo religioso às suas atividades, até mesmo no setor da economia e da política. O Presbiterianismo nascente na Escócia tendia a aproximar as classes sociais entre si, ameaçando com «os tremendos e pesados juízos de Deus» os ricos, os satisfeitos, os que acaparravam os bens eclesiásticos, e recomendando «grande deferência para com os pobres irmãos que lavram e fertilizam a terra»; assim se criou o ideal de uma teocracia igualitária, que influenciou profundamente o povo escocês. É Daniel-Rops quem comenta: «O CALVINISMO mais constrangedor e austero revelou a ele mesmo esse povo duro, laborioso e destituído de humor» (L’Église' de la Renaissance et de la Réforme n. Paris 1955, 260).

 

Severos em seus costumes, assíduos leitores da Bíblia, os presbiterianos convictos zelam por guardar em tudo uma atitude honrada e impecável, independência de caráter e tenacidade inflexível nas discussões teológicas. À vista disso, o historiador protestante A. de Mestral observava que os presbiterianos amam a sua Igreja, não como se ama uma mãe, mas como se ama uma filha, isto é, não por causa do que recebem da Igreja, mas por causa daquilo que lhe dão.

 

O culto presbiteriano, ao menos durante os seus primeiros séculos, refletia tonalidades sombrias: indiferente às expressões da arte e da mística, era todo dominado pela pregação (muitas vezes um sermão lido por um pastor), sendo a ceia raramente celebrada. Não há forma obrigatória para as orações em comum; em geral é o pastor, revestido de traje preto, quem as profere segundo seu critério pessoal, enquanto os fiéis escutam, uns em pé, outros sentados, outros ajoelhados. Rigorosa é a observância do domingo, também chamado «sábado do Senhor», a ponto de se ter dito exageradamente que o único pecado, para os presbiterianos, é a violação do sábado.

 

No Brasil a denominação presbiteriana comemora em 1959 o 1º centenário de sua entrada em nossa terra. Constitui, após o Luteranismo, o bloco mais importante pelo número de membros entre nós (cerca de 200.000). Conta hoje em dia três subdivisões juridicamente independentes uma da outra: a Igreja Presbiteriana do Brasil, a Igreja Presbiteriana Conservadora, a Igreja Presbiteriana Independente. Esta última se deve ao famoso gramático Eduardo Carlos Pereira, o qual em 1903 resolveu reagir contra uma corrente de seus correligionários, que julgavam ser a Maçonaria compatível com o Evangelho; criou então a Igreja Presbiteriana Independente.

 

O panorama atual do Presbiterianismo dividido no mundo inteiro em grupos autônomos constitui autêntico depoimento do que esta denominação significa: grande fervor religioso, sim,... desviado, porém, pelo subjetivismo e o individualismo para fora da estrada.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

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